Tem uma das vozes mais doces que já ouvimos. A sua fragilidade, para muitos uma fraqueza, é a sua maior arma. Graças a ela, aborda temas profundos com sensibilidade e responsabilidade. A música sempre a acompanhou, tanto nas viagens de carro a ouvir Elis Regina como na breve carreira de vocalista de uma banda de rock durante a adolescência. Foi com “Talvez” que se lançou, após participar no concurso televisivo da RTP “La Banda” e, a partir daí, somou vários sucessos. “FELIZ(MENTE) TRISTE”, um álbum bastante diferente do primeiro, é o resultado de um processo de introspeção duro, mas necessário. A jovem artista prepara-se agora para levar este segundo disco aos palcos, numa digressão que passará por auditórios de norte a sul do país, destacando-se o concerto deste sábado, 28 de fevereiro, no Porto, e o de 15 de abril, em Lisboa.
Como é que começou o seu percurso na música?
Em 2019, participei num programa de televisão. Não ganhei, mas, a partir daí, comecei a trabalhar com um produtor, no Porto. Nessa altura, ainda não escrevia as minhas músicas. Entretanto, comecei a investir nisso e escrevi o “Talvez”, que foi a primeira música que consegui escrever do início ao fim. A minha mãe, depois de ouvir a música, mostrou-a ao meu atual manager, o Pedro Barbosa, e ele quis trabalhar comigo. Lançámos a música e foi assim que as portas se abriram.
Carolina de Deus
Mas, quando era mais nova, sempre foi ligada à música?
Sim, diria que sim. Tanto o meu pai como a minha mãe sempre cultivaram muito esse lado mais musical. Nas viagens de carro, ouvíamos vários artistas, como o Roberto Carlos, o José Cid, a Elis Regina. Portanto, tenho boas referências. E depois, aos 15 anos, tornei-me vocalista de uma banda de rock, em Sintra, onde vivia com a minha mãe, na altura, e isso também me deu uma grande força.
Nessa altura a música ainda era um hobby?
Sim, era só um hobby. Adorava aquilo, vibrava e, sempre que tinha de me ir embora das semanas de ensaios com a minha banda, havia dias em que chorava mesmo. Mas só quando participei no programa de televisão é que percebi, de facto, que queria música para a minha vida. Aliás, nessa altura, também estava a tirar um curso de Direito, por isso foi um contraste gigante.
E porque é que escolheu seguir Direito? Era um plano B?
Não, honestamente, tive um percurso académico um pouco confuso. Andei no liceu francês e, depois, não me dava muito bem com a língua e queria mudar, queria ir para o ensino português e, na altura, queria ser médica. Então, o meu pai deixou-me ir para o Porto estudar, estudei por lá e percebi que, afinal, Matemática, Ciências, Física e Química não eram para mim. Então, depois, só tinha uma nota muito boa a Filosofia e Português e, pronto, fui para Direito um pouco porque não sabia bem o que fazer. O meu pai também é advogado, portanto, acho que isso também me ajudou a escolher.
Chegou a concluir o curso?
Fiz três anos. Morri na praia, mesmo, deixei o quarto.
Se pudesse voltar atrás, hoje teria acabado o curso?
Acho que nunca o teria começado. Acho que tinha ido para outro curso, como Psicologia. É mais a minha cara.
O seu single “Talvez” explodiu em 2022. Como disse, foi esta música que lhe abriu as portas. Como é que isso mudou a sua confiança e ligação com o público?
Quando comecei na música, a trabalhar no “Talvez”, estava a sair de uma depressão e de um distúrbio alimentar. Por isso, sinto que o sucesso desta música me salvou. Tirou-me dessa situação muito mais depressa e de uma maneira muito mais espontânea e leve, o que foi ótimo. Depois, o acontecimento em si foi tudo muito rápido, honestamente. Eu só tinha o “Talvez” e, de repente, tínhamos de ter muitas mais músicas, tanto que tive de começar a mexer-me. Sinto que foi um pouco difícil de desfrutar, ao mesmo tempo.

Como é que lidou com a pressão?
Acho que não senti muita pressão. Estava mesmo muito feliz, porque nunca esperei que tal coisa me fosse acontecer. Sinto que senti mais essa pressão agora, na transição para o segundo álbum, do que propriamente no primeiro. Até porque a minha agência também me ajudou imenso. Eles abraçaram-me, acolheram-me, ajudaram-me e guiaram-me. Também tive a ajuda da Bárbara Tinoco, que escreveu o “Seria Estúpido Ligar-te”, um dos meus singles. O “Dores de Crescimento” também foi escrito pelo Tiago Nogueira e pela Mariana Moreira. Portanto, logo aí, já tinha algum repertório. Escrevi o “Querido Futuro Namorado”, que depois acabou por correr também muito bem. Parecia que tinha uma estrelinha ao meu lado, que as coisas estavam só a correr bem e sinto que isso aconteceu porque eu não estava preocupada. Estava apenas a desfrutar da parte do trabalho, a assumir as coisas, a fazer o que tinha de ser feito e, por isso, foi bom. Foi uma pressão boa.
Revelou que sentiu mais pressão agora, na criação do segundo álbum, porquê?
A transição do primeiro álbum para o segundo foi uma fase um pouco mais complicada para mim. Eu já tinha alguma experiência na música e havia a questão da expectativa, depois de um primeiro álbum que correu tão bem. Criou-se, assim, uma pressão para ir ao encontro das expectativas, manter o mesmo registo ou ser melhor. E, depois, também surgiu um peso na parte da exposição pública. Se, por um lado, as pessoas adoraram o meu álbum, por outro, também comecei a receber algumas críticas por ser “a miúda que sofre”, que só fala de amor, de desgostos amorosos. Essa parte foi um pouco difícil. Além disso, entre 2022 e 2023, sinto que cresci muito, que fui um bocadinho obrigada a crescer, para estar à altura de tudo o que este mundo propõe. Por isso, houve muitas coisas que me mudaram: a sonoridade, os temas sobre os quais quero escrever. Sinto que foi uma fase muito introspectiva e, se calhar, levei-me demasiado a sério e isso tornou o processo do segundo álbum um pouco pesado. Se pudesse voltar atrás, teria vivido este processo de forma mais leve.
Capa do novo álbum de Carolina de Deus, “FELIZ(MENTE) TRISTE”
De onde surge o conceito do álbum “FELIZ(MENTE) TRISTE”?
Começou com mensagens muito específicas, coisas que precisava de tirar de mim, de soltar, de mandar para fora. Gosto de dizer que este álbum se assemelha a um diário. Apesar de nem tudo ser sobre mim, é um álbum de introspeção e de muitas quedas. É daí que surge o conceito: levei-me muito a sério e também me martirizei por ser frágil, por ir abaixo, por sentir isto ou aquilo. No entanto, no fim deste processo, aprendi que ainda bem que sou assim, ainda bem que vivo as coisas muito intensamente e que, às vezes, me levo demasiado a sério, porque, quando estou mal e vou mais abaixo, é quando percebo melhor quem sou e quando ganho mais força, mais experiência. É daí que vem o título “FELIZ(MENTE) TRISTE”: porque sou tudo ao mesmo tempo e gosto de ser assim. E o “mente”, entre parênteses, remete para a saúde mental, porque tenho três temas sobre saúde mental e quis dar-lhes destaque.
Sente que este álbum a ajudou a manter-se fiel a si mesma?
Completamente. Mudei um pouco de registo. Se olharmos para o primeiro álbum, este é bastante diferente, e isso assustou-me. Assustou-me pensar que as pessoas poderiam não aderir tanto. Mas, no final de contas, lancei o álbum muito feliz com aquilo que fiz e descansada por ter deitado tudo cá para fora. As pessoas que o ouvirem e que se identificarem com ele, para mim, isso basta, porque é mesmo para isso que o álbum serve: para ajudar pessoas e para que se sintam menos sozinhas em certas situações. Estou muito feliz, identifico-me muito com aquilo que lancei. Se calhar, daqui a um ano ou dois já não me vou identificar, mas agora é o que me faz sentido.
Neste álbum tem algum tema de que goste mais?
Sim, sem dúvida. Tenho o “Tu Não Fazes Ideia”, que foi a focus track do álbum, o “Corpo em Guerra”, uma música que fala sobre o distúrbio alimentar, e o “Canto Pop”, que fala sobre o preconceito em relação ao pop, de ser artista pop na terra do fado.
Sente esse preconceito, de ser uma “artista pop na terra do fado”?
Já senti, claro, através de mensagens ou comentários. Mas também, não sei explicar, é uma espécie de sensação, e acho que há muita gente no pop que sente isto. É uma resposta sem mal nenhum, apenas a afirmar que, se sou artista pop, é porque é aquilo que me sai, é aquilo que eu sou neste momento. Se calhar, não deixarei de o ser, apesar de adorar fado e o sentir muito. Ser artista pop na terra do fado, às vezes, não é fácil; parece que precisamos de provar mais e isso não é muito justo.

Como é o seu processo criativo e de escrita?
Depende. Às vezes, vou para a cama e, de repente, antes de adormecer, surge-me uma melodia ou uma letra e começo a escrever. Às vezes, sento-me ao piano e começo apenas a tocar nas teclas e a criar melodias, e escrevo uma letra por cima. Outras vezes, vem apenas a letra e depois componho a melodia. Cada processo é diferente, mas costumam funcionar todos.
E inspiração, vai buscá-la à sua vida e a situações que observa para expor sentimentos que guarda dentro de si?
Sim. Talvez seja por isso que me saem mais sentimentos negativos, porque me dá mais vontade de ajudar as pessoas e de me ajudar a mim nessas alturas.
Os fãs estão a reagir bem ao novo álbum? Que feedback tem recebido?
Tem sido muito positivo. É engraçado, parece que os meus fãs, não digo todos, mas grande parte deles, passam mesmo por muitas destas situações. Dou o exemplo do “Corpo em Guerra”. É uma música sobre distúrbio alimentar e, aos poucos, percebi — e isso deu-me muita segurança em tê-la lançado — que há muita gente a passar por isto, principalmente miúdas mais novas. Por isso, quando recebo partilhas e mensagens a dizer que a música ajudou e que está a ajudar a fazer o luto da situação, sinto uma sensação de missão cumprida.
Se tivesse oportunidade, com que outros artistas gostava de colaborar?
Vou dizer a Marisa Liz. Ela é incrível. Acho que seria interessante. E sinto que ela também gosta muito de passar mensagens.
Uma carreira internacional, faz parte dos planos?
Faz. Gostava de me introduzir no mercado francês, porque andei no liceu francês e tenho essa vantagem de falar a língua, e também gostava muito do Brasil.
E que partes de si, enquanto artista e mulher, ainda quer mostrar?
Acho que gostava de marcar mais esta ideia de que posso ser frágil, algo que se nota através das minhas músicas, mas também sou muito forte. Quero que a mensagem do álbum fique bem clara: sou frágil, muitas vezes, mas também sou muito forte. É esse o lado que gostaria de mostrar mais às pessoas.



