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Conectados ao Mundo, Desligados de Nós

Entre mensagens, likes e atualizações, perdemo-nos de nós próprios. Num tempo em que tudo pede resposta imediata, talvez a maior urgência seja aprender a desligar.

É curioso: nunca estivemos tão ligados e, ao mesmo tempo, nunca nos sentimos tão longe de nós próprios. Vivemos numa era em que a ligação é instantânea, infinita, ininterrupta. Redes sociais, mensagens, notificações, atualizações, opiniões, convites. Estamos sempre “onde tudo acontece”. Porém, é urgente questionarmo-nos para onde tudo isto nos está a levar.

Há uma pergunta que me inquieta: quanto tempo passamos ligados ao mundo e quanto tempo passamos ligados a nós? A diferença entre uma coisa e outra diz muito sobre o mal-estar silencioso da época atual em que vivemos.

A vida permanentemente em “modo on”.

O telemóvel vibra. Vemos.

Uma mensagem entra. Respondemos.

Uma publicação aparece. Reagimos.

Um email chega. Abrimos.

É automático. É contínuo. É exaustivo.

A nossa atenção tornou-se uma casa sem portas: qualquer estímulo entra, instala-se e exige resposta. E quando damos por isso, já não sabemos onde termina o mundo e onde começamos nós, o nosso sentir e as nossas necessidades.

Quanto mais nos ligamos fora, mais nos afastamos dentro

Há algo profundamente paradoxal nas ligações digitais: aproximam-nos dos outros, mas afastam-nos de nós. E este afastamento tem sintomas muito concretos:

  • Dificuldade em perceber o que sentimos;
  • Confusão entre o que é desejo e/ou necessidade própria e o que é influência externa;
  • Um constante fundo de inquietação;
  • Uma sensação de vazio mesmo rodeados de pessoas.

É como se vivêssemos virados para o mundo, porém de costas para nós.

Como se soubéssemos tudo o que acontece lá fora, mas esquecêssemos o que acontece cá dentro.

O que deixámos de ouvir quando começámos a ouvir tudo (e todos)?

O ruído do mundo é cada vez mais alto. E quanto maior o ruído, mais baixo fica o volume da nossa voz interna.

Perdemos a capacidade de escutar o que o corpo pede, perceber quando estamos a ultrapassar limites, distinguir a nossa vontade da expectativa alheia, como de reconhecer sinais de cansaço ou saturação emocional.

Estamos tão ocupados em responder a tudo que deixamos perguntas importantes sem resposta.

Desligar não é fugir – é regressar à nossa casa interna

Desligar é uma palavra que (ainda) assusta. Parece sinónimo de desconexão social. No entanto, na verdade, pode ser um verdadeiro sinónimo de reconexão pessoal. É abrir espaço para escutar os sons de silêncio, sentir o corpo, reparar no que está a ser ignorado, perceber o que realmente importa e recuperar a capacidade de estar.

E não é preciso uma grande mudança. Às vezes, bastam micro gestos que podem ser verdadeiros atos de autocuidado:

  • 5 minutos de pausa sem ecrãs;

  • Andar mais devagar;

  • Tomar o pequeno-almoço sem olhar para o telemóvel;

  • Trocar o scroll por uma respiração consciente;

  • Um “respondo mais tarde” dito com serenidade e convicção.

Reconectar-nos: o verdadeiro luxo da nossa era

A maior sensação de bem-estar não vem de estarmos em todo o lado.

Vem de estarmos onde estamos. De sentir o próprio corpo. De entender o que o nosso mundo interno diz quando finalmente tem espaço para falar.

Numa época em que o mundo nos pede velocidade, produtividade e visibilidade, talvez o gesto mais importante seja este: conectados ao mundo, sim — mas nunca às custas de estarmos desligados de nós.


Helena Paixão

Psicóloga Clínica

Ceo & Founder da Clínica Helena Paixão – Psicologia, Mindfulness e Desenvolvimento Pessoal

– Contactos –

Site: helenapaixao.com

Instagram: @helenapaixao.psicologa 

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