Há dores que não cabem em metáforas. Dores que são quase impossíveis de descrever e, em determinados dias, parece utopia que a elas se consiga sobreviver. A endometriose é feita dessas dores — cruas, incisivas, excruciantes, persistentes — que atravessam o corpo como facas afiadas e, ainda assim, durante anos, são marginalizadas, subdiagnosticadas e normalizadas.
Tudo começa, muitas vezes, na adolescência. As primeiras menstruações trazem consigo um desconforto que é mais do que isso: é uma dor sem igual, que dobra o corpo como se o quisesse partir ao meio. Mas dizem-nos que é normal. Que todas as mulheres sofrem. Que “a dor ensina”. Que “mais uns anos e passa”. E assim nasce o primeiro mito — o mais cruel: o de que sofrer é parte natural da condição de ser mulher. Mas a dor não passa. Avança. Progride para estádios que se fazem prolongar nos dias e os tornam cada vez mais dolorosos, enquanto continua sem nome. E sem tratamento.
Com ela vêm hemorragias que não parecem pertencer à escala do razoável. Cólicas intestinais que nos fazem morder os próprios braços, na esperança de transferir aquela dor que nos trucida internamente. Diarreias catameniais que aparecem sem aviso e se prolongam até à exaustão de um corpo já quase desfeito. Uma sensação de ardor que imita infeção urinária, mas que nunca melhora com antibióticos. E, quando o corpo permite a vulnerabilidade e a entrega, vem a dor durante a relação sexual — um assunto que se cala por vergonha, por medo, por uma tradição antiga de desvalorizar e silenciar o que dói no corpo feminino.
Os anos passam, a mulher tenta explicar, mas cada frase parece exagero aos ouvidos dos outros. “É só o período.” “É ansiedade.” “É psicológico.” A sociedade aprendeu a minimizar a dor feminina, e a medicina – por mais avanços que tenha — ainda carrega ecos dessa herança. Há consultas apressadas, diagnósticos genéricos, analgésicos que pouco fazem. Há exames que não mostram tudo, há suspeitas que não se concretizam. E há um corpo que continua a doer, a latejar e a sangrar, dia após dia.
Felizmente — e graças a uma luta activa — já se verificam muitos progressos, mas nos nossos dias ainda é possível ter de esperar oito, dez, doze anos até alguém dizer a palavra certa: endometriose. E isto não acontece porque a doença seja invisível — ela grita. É porque a dor da mulher ainda é, muitas vezes, invisibilizada. Os mitos acumulam-se como pedras no caminho: o de que só as mulheres “sensíveis” sentem tanto; o de que ciclos menstruais dolorosos são banais; o de que a fertilidade é um destino e, por isso, qualquer problema ginecológico se torna tabu. Fala-se pouco e tarde. E quem sofre vai sobrevivendo nessa espera.
Quando finalmente chega o diagnóstico, já houve anos de perdas: dias de escola, dias de trabalho, relacionamentos que ficaram pelo caminho, amizades que nunca entenderam, médicos que não ouviram, urgências que só ofereceram anti-inflamatórios como consolo. O corpo ficou marcado, mas não foi o único, a alma também. Quando finalmente chega o diagnóstico há um momento em que a mulher percebe que não era “drama”, não era “mania”, não era “da sua cabeça”: era doença. Sempre foi. E essa confirmação, mesmo carregada de gravidade, traz um estranho alívio — o alívio de finalmente ser vista e de, a partir desse momento, ser possível procurar ajuda adequada.
A crónica da endometriose é, acima de tudo, a crónica de uma teimosia: a do corpo em avisar e a do mundo em não querer ouvir. Talvez, um dia, o diagnóstico deixe de demorar tantos anos. Talvez, um dia, a sociedade deixe de ensinar as meninas a normalizar a dor. Até lá, cada mulher que encontra o nome da sua doença ergue, também, um espelho diante da sociedade: um espelho que obriga todos a olhar, sem desviar, para aquilo que foi ignorado durante demasiado tempo e deixou marcas, muitas vezes irreversíveis.
Susana Fonseca
Presidente da Direção da MulherEndo
