O voluntariado é um conceito e uma prática de grande amplitude. Pois, num mundo de iniquidade e caos que assola muita gente, pela complexidade do contexto geopolítico atual, que assume uma variedade de dinâmicas — incluindo disputas territoriais e conflitos, questões económicas, como desigualdades e crises, tensões étnicas e religiosas, e ainda os desafios globais e o seu impacto nas decisões políticas e negociações internacionais —, despoletam-se assimetrias e dificuldades nas quais é preciso intervir.
Assim, a vontade de ajudar nasce primeiramente da empatia. Emerge da energia interna que se move pela preocupação pelo outro, manifestando-se numa atitude pró-social para atenuar o sofrimento e acrescentar valor. A moldura histórica confirma isso.
Ser voluntário é acreditar profundamente que gestos simples tranquilizam muito mais do que um ansiolítico. É oferecer amizade com coragem. É aqui que começamos a falar de solidariedade e inclusão, os pilares humanos que se erguem no caminho para a igualdade e a equidade.
A solidariedade inspira-se em valores que promovem o amor, a aceitação e a compreensão do outro. Forma-se através da criação de laços, que constroem uniões para fortalecer o espírito de missão, na procura, partilha e distribuição de recursos e respostas, para colmatar necessidades materiais e imateriais, visando a promoção do bem-estar e da harmonia, individual e comunitária. As ações em comunidade tornam-se mais agradáveis. Tal como refere o sociólogo Zygmunt Bauman, as comunidades são uma coisa boa e emanam de uma sensação agradável, para nos sentirmos confiantes, tranquilos e seguros de nós. Estes sentimentos de pertença traduzem-se na inclusão, que se dispõe a integrar e a combater a discriminação e as consequências psicológicas, emocionais e sociais decorrentes da perda de oportunidades ou do impedimento ao acesso a recursos.
A intervenção de voluntariado cumpre a função de estabelecer o ponto de contacto entre a comunidade, a pessoa e as instituições, no sentido da obtenção de soluções, tentando a redução das desigualdades resultantes da discriminação, assim como do isolamento, que atinge várias camadas, mas sobretudo a população mais idosa ou casos sociais, como as pessoas que continuam nos hospitais sem motivo clínico, mas sem condições de suporte e resposta de integração em centros de cuidados continuados ou lares, permanecendo ali. Perante esta condição, é essencial ajudar estas pessoas que, na sua maioria, não têm retaguarda familiar. Padecendo de solidão, os voluntários encarregam-se de lhes atenuar o sofrimento, dando conforto e companhia e, na despedida do “até amanhã”, permanecem os laços afetivos.
A inclusão, além do espectro técnico de práticas com a finalidade de transformar circunstâncias limitadoras ou impeditivas em oportunidades adaptativas, assenta num compromisso de aceitação e respeito pela diferença e na integração num todo. Para tal, é urgente repensar as medidas sociopolíticas e alargar os apoios, com o objetivo de garantir a participação plena de todos os indivíduos na sociedade, contribuindo para o desenvolvimento sustentável.
Termino como comecei: a motivação para o voluntariado está ligada a uma satisfação sentida pelo dever cívico e ancorada na generosidade e no sentido de comunidade, almejando minorar as dificuldades e tornar a vida mais esperançosa. A dedicação aos outros é dar alento, alegria e esperança, com o intuito de contribuir para a felicidade dos outros. A dimensão do serviço de entreajuda não se esgota no voluntariado em comunidade; deve ser parte integrante da vida de qualquer cidadão. Basta estarmos atentos e colocarmo-nos no lugar do outro com empatia, compreendendo as suas necessidades e sentimentos. Quando se melhora o mundo de uma pessoa, já se muda o mundo.
Cabe a cada um de nós a consciencialização para pensar e agir na direção de um mundo mais justo e fraterno. Um legado para um mundo melhor, que vale a pena.
Carla Cunha Coelho
