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Mulheres com Atitude: Ana Ventura Miranda, Arte Institute

O que começou como uma resposta à sensação de que a cultura portuguesa estava praticamente ausente de Nova Iorque transformou-se numa plataforma internacional de divulgação artística, que, ao longo de 15 anos, já passou por 39 países e 121 cidades.

Ana Ventura Miranda fundou o Arte Institute, em 2011, com a vontade de afirmar em Nova Iorque um Portugal contemporâneo, criativo e plural. O que começou como a resposta à sensação de que a cultura portuguesa estava praticamente ausente da cidade transformou-se numa plataforma internacional de divulgação artística, diálogo intercultural e promoção de talentos portugueses além-fronteiras.

Arte Institute

Há 15 anos, Ana fundou o Arte Institute com o objetivo de mostrar em Nova Iorque o Portugal contemporâneo. Nessa altura, vivia há cinco anos na Big Apple e sentia que a cultura portuguesa contemporânea era praticamente inexpressiva: “Queria ver o Portugal atual apresentado na cidade e ver experiências culturais que refletissem o país que eu conhecia”.

Sempre que falava na possibilidade de criar um espaço para essa representação, recorda que frequentemente ouvia que “só tinha ideias megalómanas e demasiado ambiciosas e que, sem um investimento considerável, seria impossível conquistar um lugar para Portugal”. Essa incompreensão despertou em si uma vontade de agir e de testar “o quão impossível era esse impossível”.

Começou por ter a ideia de criar um festival de curtas-metragens portuguesas — o NY Portuguese Short Film Festival — , que se tornou no primeiro festival de curtas-metragens portuguesas nos Estados Unidos da América e que celebra este ano a sua 16.ª edição.

Durante a organização do festival, surgiu-lhe uma nova ideia: queria criar um portal com uma galeria online para os artistas plásticos nacionais, bem como entrevistas a vários artistas e projetos culturais portugueses, para haver espaço para promover outras áreas do espetáculo. Ainda na sequência do NY Portuguese Short Film Festival, teve a oportunidade de, durante três meses, apresentar quinzenalmente música, dança e artes plásticas no Union Square Park — o Summer Night Series at Union Square Park —, permitindo mostrar um Portugal vibrante e diversificado. “A partir daí nunca mais paramos e oito meses depois estávamos no Brasil a começar a internacionalização do Arte Institute e dos artistas portugueses”, conta.

Desde então, o Arte Institute tornou-se uma plataforma de ligação entre artistas portugueses e comunidades internacionais, promovendo o diálogo intercultural através da colaboração entre diferentes linguagens artísticas e geografias. Um exemplo dessa visão é o projeto “Sobre o Mar Poesias”, que, durante mais de 10 anos, juntou o escritor angolano Ondjaki, o músico brasileiro Marcelo Magdaleno e o artista plástico português António Jorge Gonçalves, cruzando literatura, música, artes plásticas e, por vezes, dança, para mostrar a força e a beleza da língua portuguesa.

Seguiram-se a “Semana de Saramago em Nova Iorque”, as apresentações de cinema português no MoMA, o “Pessoa em Nova Iorque”, o “Iberian Suite” no Kennedy Center, o “Mulheres Portuguesas nos Estados Unidos”, o “FACTT – Festival de Arte e Ciência”, o icónico “SummerStage” no Central Park, os espetáculos de dança contemporânea portuguesa e concertos que pela primeira vez chegavam de forma regular aos Estados Unidos, o “Festival de Literatura em São Tomé e Príncipe”, o “Arte Box”, que apresenta exposições de artistas lusófonos nos aeroportos de Washington, Lisboa e Rio de Janeiro, e a “Mostra de Portugal Contemporâneo no Brasil”, entre muitos outros.

Durante todo este percurso, passaram por 39 países e 121 cidades, e foram promovidos mais de 1.500 artistas em todo o mundo. Para Ana, este é um balanço “extremamente positivo e sem precedentes”, refletindo um papel incontornável na história da internacionalização da cultura portuguesa contemporânea.

Créditos: Paul Machado

Os principais desafios, explica, continuam a ser os de qualquer pessoa, mas especialmente os das mulheres: ser e manter-se fiel a si própria, seguir os seus sonhos com convicção e autenticidade. Considera que ainda é difícil usar certos adjetivos quando se fala de mulheres e que, muitas vezes, o talento feminino continua a ser visto como uma ameaça, precisamente por ousar afirmar-se com a sua própria dimensão.

“Adoro ser mulher”, afirma, sublinhando a força de olhar o mundo através dos seus olhos de mulher, que lhe permitiram sentir, construir, observar e descobrir caminhos diferentes. Por isso, defende a importância de as mulheres se valorizarem mutuamente e trabalharem em equipa, porque cada conquista individual alarga o campo do possível para todas.

A partir dessa experiência nasce também o RHI, sigla de Revolution Hope Imagination — revolução nas mentalidades e na forma de fazer cultura, esperança como motor da ação e imaginação como resposta quando os recursos são escassos. O projeto foi rapidamente apelidado de “Web Summit da Cultura” pela sua capacidade de gerar redes de networking e proporcionar formação a artistas e profissionais do setor.

O RHI surgiu após oito anos de experiência no Arte Institute, quando Ana percebeu a necessidade de adaptar a estratégia de promoção dos artistas portugueses. Em vez de levar todos os artistas para os Estados Unidos e para outros eventos internacionais, decidiu inverter a lógica: trazer programadores internacionais a Portugal, para que conhecessem os talentos nacionais e criassem novas oportunidades de internacionalização. O objetivo passa também por descentralizar a cultura em Portugal, abrindo espaço a várias regiões do país e permitindo que os artistas se apresentem a curadores e programadores que os possam convidar para atuar além-fronteiras.

Nesta oitava edição, a decorrer até ao dia 12 de maio, o RHI continua a criar oportunidades para artistas de várias áreas e inclui workshops e palestras para formação e capacitação de profissionais da cultura, reforçando a mesma visão que tem guiado todo o percurso de Ana: usar a cultura como linguagem universal, criar pontes entre comunidades e ampliar o lugar da arte portuguesa no mundo.

Por detrás de um grande projeto está uma grande mulher

Créditos: Filipe Pombo

Se fosse uma personagem de um livro, seria a Blimunda, do romance Memorial do Convento, de José Saramago. Como Fernando Pessoa, em si cabem muitas facetas: “O meu corpo é português, a minha cabeça é nova-iorquina, a minha alma e o meu coração são cariocas”, explica.

Foi atriz e produtora antes de chegar a Nova Iorque. Viajou para os Estados Unidos com o objetivo de fazer cursos de atuação, representação e cinema. Quando percebeu que iria ficar mais tempo na cidade, começou a trilhar um caminho profissional mais consistente e acabou por trabalhar na Missão de Portugal junto das Nações Unidas. Trabalhou também como jornalista para a televisão portuguesa, bem como em órgãos da imprensa escrita portuguesa, e, por um breve período, na Rádio em Português das Nações Unidas. Posteriormente, trabalhou na renomada Galeria Sonnabend e, a seguir, fundou o Arte Institute, que, conta, se tornou até agora “a grande concretização e missão da minha vida”.

Para além do Arte Institute, faz consultoria para a internacionalização de projetos artísticos de vários países e tem sido júri em vários festivais nacionais e internacionais.

Em 2019, fez parte do primeiro Grupo de Reflexão sobre o Futuro de Portugal, do Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa, até 2022. É membro do Conselho da Diáspora e coordenadora da América do Norte; é head do BSN Cultura e Turismo da Rede do Empresário. Em 2015 recebeu o Prémio D. Antónia Ferreira e, em 2017, o Prémio da PALCUS, na categoria de Leadership for the Arts, nos Estados Unidos. “Ambas as premiações deixam-me muito orgulhosa por serem prémios atribuídos pela sociedade civil”, comenta.

Apaixonada pelo mar e pela praia, Ana gosta de remar e andar de barco nos tempos livres. Prefere viver esses momentos “ao lado das pessoas que mais amo”. Quando está em Portugal e em Nova Iorque, não perde um pôr do sol — ou, como aprendeu em Moçambique, o nascer da lua. No Rio de Janeiro, prefere assistir ao amanhecer e ao avermelhado do céu a abrir o dia, “cheio de paixão e possibilidades infindáveis”.

O que o futuro reserva

Quando pensa no futuro, Ana afirma que o seu maior projeto, aquele que tem todos os dias quando acorda, é “ser feliz”. O resto nasce naturalmente desse compromisso que tem consigo. “A autenticidade, a criatividade, o propósito, a capacidade de olhar à nossa volta com empatia e com os olhos do coração são o reflexo do caminho para a felicidade”, diz. E é nesse processo que “tudo acontece, floresce e continua corajosamente a inovar e a recriar”. 

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