[wlm_register_Passatempos]
Siga-nos
Topo

Vinho no Feminino: Filipa Pato

A vitivinicultora fundadora da Filipa Pato Vinhos em entrevista à LuxWoman.

Profundamente ligada à terra e às suas origens, Filipa Pato cresceu numa família onde o vinho fazia parte do quotidiano. Desde cedo percebeu que o seu caminho passaria inevitavelmente por este universo, ainda que tenha optado por uma formação em Engenharia Química, em Coimbra. Uma escolha que, como a própria reconhece, se revelou fundamental ao proporcionar-lhe “uma base científica importante para compreender melhor os processos do vinho”. Em 2001, criou o seu próprio projeto na Bairrada, a Filipa Pato Vinhos, com o objetivo de mostrar o enorme potencial do terroir da região e trabalhar exclusivamente com as castas autóctones. Cinco anos mais tarde, o marido, William Wouters, juntou-se ao projeto, trazendo uma perspetiva internacional e reforçando a dimensão do trabalho desenvolvido. Entre a tradição familiar e uma visão muito própria do vinho, a vitivinicultora construiu um percurso marcado pela autenticidade, pelo respeito pela natureza e pela vontade de valorizar a identidade da Bairrada

A Filipa Pato é…

Sou antes de tudo uma mulher profundamente ligada à terra. Cresci entre vinhas na Bairrada e hoje continuo a viver ao ritmo da natureza e das estações. Sou viticultora, mãe, curiosa e apaixonada pelo que faço. Gosto de dizer que os meus vinhos são “sem maquilhagem”: vinhos autênticos que refletem o lugar de onde vêm.

O vinho ensina-nos humildade. Todos os anos a natureza lembra-nos que não controlamos tudo. O nosso papel é observar, cuidar e respeitar o equilíbrio natural. É um trabalho muito humano, muito ligado ao tempo e à paciência.

Quando é que nasceu a sua paixão pelo mundo dos vinhos?

Nasceu de forma muito natural. Cresci numa família onde o vinho fazia parte da vida diária. O meu avô, João Pato, foi um pioneiro na Bairrada ao engarrafar vinhos com o seu próprio nome numa altura em que quase ninguém o fazia. O meu pai, Luís Pato, teve um papel fundamental na valorização da casta Baga e mostrou ao mundo o potencial desta variedade.

Desde pequena acompanhei a vida da vinha e da adega. Era um ambiente muito vivo, cheio de energia, e isso marcou-me profundamente.

Como descreve o seu percurso até chegar onde está hoje?

Estudei Engenharia Química em Coimbra, o que me deu uma base científica importante para compreender melhor os processos do vinho. Mas rapidamente percebi que o meu lugar estava na vinha.

Fiz várias vindimas fora de Portugal — em Bordeaux, Mendoza e Margaret River — e essas experiências permitiram-me conhecer diferentes formas de trabalhar e diferentes culturas do vinho.

Em 2001 decidi criar o meu próprio projeto na Bairrada, com uma visão muito clara: mostrar o enorme potencial do nosso terroir e trabalhar exclusivamente com as castas autóctones da região. Em 2006 o meu marido, William Wouters, juntou-se ao projeto. Como sommelier e grande apaixonado pela gastronomia, trouxe uma perspetiva internacional muito interessante ao nosso trabalho.

Como surgiu o projeto Filipa Pato Vinhos?

O projeto nasceu da vontade de valorizar a identidade da Bairrada. Sempre acreditámos que as nossas castas autóctones — sobretudo a Baga, mas também Bical, Arinto, Cercial e Maria Gomes — têm uma capacidade extraordinária para expressar o terroir.

Que desafios enfrentaram inicialmente?

Nos primeiros anos o desafio foi mostrar uma nova interpretação da Bairrada: vinhos mais elegantes, mais precisos e profundamente ligados ao lugar. Outro desafio importante foi a decisão de trabalhar em biodinâmica, algo que há vinte anos era ainda pouco compreendido.

O que distingue os seus vinhos — e a sua filosofia — dos restantes produtores da região?

Talvez a forma como olhamos para a propriedade como um organismo vivo. Temos 20 hectares de vinha distribuídos por 37 parcelas, cada uma com a sua identidade própria. Trabalhar parcela a parcela permite-nos compreender melhor as nuances do terroir.

Além das vinhas, temos também 4 hectares de floresta, que desempenham um papel fundamental no equilíbrio natural da propriedade.

A biodiversidade é essencial. Temos ovelhas que ajudam a controlar a vegetação, porcos que mobilizam naturalmente o solo e uma mula que faz parte da vida da quinta e nos ajuda a trabalhar algumas parcelas.

Este ecossistema cria um ambiente mais equilibrado e resiliente.

Mas o elemento mais importante são as pessoas. A nossa equipa trabalha diariamente na vinha, observando cada planta, podando, cuidando e acompanhando o ciclo da natureza. Acredito profundamente no saber-fazer humano e no trabalho manual.

Não acredito que as máquinas possam substituir o olhar atento e a sensibilidade das pessoas.

Qual é o vinho de que mais se orgulha? Porquê?

A nossa Missão Baga é muito especial para mim. Provém de uma vinha pré-filoxérica plantada em 1864, um verdadeiro património da Bairrada. Estas vinhas antigas têm raízes muito profundas e uma capacidade extraordinária de expressar o terroir.

Cada garrafa é um pequeno testemunho da história da região.

Para si, o que faz um bom vinho?

Um grande vinho começa sempre na vinha. Precisa de um grande terroir, de plantas saudáveis e de um equilíbrio natural.

Na adega, o nosso papel é sobretudo respeitar aquilo que a natureza nos deu.

Para mim, um grande vinho é aquele que emociona, que tem identidade e que conta uma história.

Com que vinho brindaria a um momento especial da vida?

Provavelmente com um espumante da Bairrada feito pelo método clássico. É um vinho que combina elegância, frescura e celebração.

Enquanto mulher, sente que alguma vez a trataram de forma diferente nesta área profissional?

Talvez no início. Mas acredito que o trabalho e a consistência falam mais alto do que qualquer rótulo.

Hoje vejo cada vez mais mulheres a trazer sensibilidade, criatividade e novas perspetivas para o mundo do vinho.

Considera que Portugal consegue oferecer vinhos de qualidade a um preço competitivo?

Sem dúvida. Portugal tem uma enorme diversidade de terroirs e uma riqueza extraordinária de castas autóctones. Isso permite produzir vinhos muito autênticos e muitas vezes com uma excelente relação qualidade-preço.

Quais são, para si, os principais desafios atuais do setor vitivinícola português?

Talvez o maior desafio seja valorizar ainda mais o nosso património vitícola.

Portugal tem vinhas antigas, castas únicas e terroirs extraordinários. Precisamos de continuar a comunicar essa singularidade ao mundo.

Portugal ainda tem caminho a percorrer na sua reputação internacional? O que seria preciso mudar?

Sim, ainda há muito potencial por explorar. O mundo está cada vez mais interessado em vinhos autênticos e ligados ao território — e Portugal tem exatamente isso. Precisamos de continuar a apostar na qualidade e na identidade.

É difícil atrair e fidelizar consumidores mais jovens? Como se pode conquistar esse público?

Os jovens procuram autenticidade, sustentabilidade e histórias verdadeiras. Quando mostramos a ligação entre vinho, natureza, gastronomia e cultura, o vinho torna-se muito mais interessante para as novas gerações.

Que vinho recomendaria a quem está a começar a descobrir este universo?

Recomendaria um vinho fresco, equilibrado e fácil de beber — algo que desperte curiosidade e vontade de explorar mais.

Que sonho ou projeto ainda gostaria de concretizar neste mundo do vinho?

Continuar a preservar as nossas vinhas antigas e aprofundar o trabalho com a biodiversidade na propriedade. Mas sobretudo gostaria de ver a Baga reconhecida internacionalmente como uma das grandes castas do mundo, ao lado da Nebbiolo no Piemonte ou da Pinot Noir na Borgonha.

A Bairrada tem tudo para ser um dos grandes terroirs do vinho mundial.

Veja mais em Pessoas

PUB


LuxWOMAN