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Nem toda a mulher forte está bem

SER FORTE NEM SEMPRE É UMA ESCOLHA — ÀS VEZES, É O QUE RESTOU. NESTA CRÓNICA, EXPLORAMOS O QUE ACONTECE QUANDO UMA MULHER SE CANSA DE AGUENTAR TUDO SOZINHA… E COMEÇA, FINALMENTE, A ESCOLHER-SE

Dizem que nos antigos circos ensinavam a resignação a elefantes com uma simples corda e um poste. Apanhavam o animal ainda bebé, cheio de vitalidade, e amarravam-no firmemente. O elefantinho, instintivamente rebelde, puxava, lutava, tentava libertar-se. Dia após dia. Até perceber que não adiantava. Que nada mudava. E então, um dia, parava de tentar.

Anos mais tarde, o elefante era adulto, robusto, uma força da natureza — mas bastava-lhe a mesma corda frouxa para o manter imóvel. Porque o que o prendia já não era a força do nó. Era a crença antiga de que não valia a pena tentar.

Nós lá na Psicologia chamamos a isso “desamparo aprendido”.

E há muitas mulheres por aí a viver assim.

Mulheres que sabem cuidar de todos, menos de si. Que dão tudo o que têm, até quando já não têm nada. Que estão sempre disponíveis, mesmo quando ninguém lhes pergunta como estão. Mulheres que carregam famílias, equipas, relacionamentos — e que, ainda assim, se acham em falta. Mulheres que resistem porque aprenderam cedo que desistir não era opção. Que chorar era fraqueza. Que sentir era perigoso

A estas mulheres chamam-nas de fortes. Mas poucas se perguntam a que custo.

Porque a verdade é que nem toda a mulher forte está bem. Muitas estão exaustas. Não de fazer, mas de “ter de ser”. De não terem espaço para ser frágeis, vulneráveis, confusas, humanas.

Crescer num ambiente emocionalmente adverso ensina-nos cedo a apagar partes de nós para sobreviver. Não era seguro chorar, então aprendemos a engolir. Não era seguro estar zangada, então aprendemos a sorrir. Não era seguro precisar, então tornámo-nos auto-suficientes — à força.

Mas isso não é força. Isso é sobrevivência.

A depressão, por exemplo, tantas vezes confundida com fraqueza ou inércia, é frequentemente o resultado de uma longa história de repressão. “Deprimir” significa empurrar para baixo. E aquilo que se empurra são sentimentos: dor, raiva, medo, saudade, frustração. Emoções que, na infância, não tinham espaço, porque ninguém as conseguia acolher.

E então escondemo-las. Mas elas não desaparecem. Elas esperam.

E reaparecem, como fantasmas, nas relações, nas crises existenciais, nas noites em claro, nos ataques de ansiedade à hora de almoço, nos silêncios insuportáveis. Ou no impulso de querer desaparecer sem saber exactamente porquê.

 É importante lembrar: não se trata de culpar pais ou cuidadores. Trata-se de perceber que muitas vezes eles próprios foram ensinados a calar, a engolir, a resistir. A dor é transgeracional — passa-se sem palavras, por gestos, silêncios e olhares. E instala-se, sorrateira, como uma segunda pele.

Mas há algo que talvez ninguém lhe tenha dito: pode escolher romper com isso. Não é fácil. Mas é possível.

A primeira etapa é observar os seus próprios padrões: os relacionamentos que escolhe, as situações que tolera, os pensamentos que repete. Perceber o que em si se activa em determinados momentos — que memórias antigas se escondem por trás de uma reacção “desproporcionada”. Que necessidades não reconhecidas estão por trás da sua raiva, da sua apatia, da sua hiperindependência.

O corpo também guarda estas memórias. E fala. Com dores, fadigas, nódoas sem causa aparente. Ou com doenças psicossomáticas, auto-imunes (o corpo em luta consigo mesmo) que são, muitas vezes, pedidos de ajuda, gritos de socorro, em forma de sintomas.

O problema é que, para muitas mulheres, sentir-se “mal” ainda é motivo de culpa. “Tenho casa, trabalho, filhos saudáveis — como me posso sentir assim?”

Mas não é ingratidão. É uma história não resolvida. É um self partido, fragmentado. É uma força construída sobre escombros — bela por fora, estilhaçada por dentro.

E é aqui que a psicoterapia pode ser um lugar de reencontro.

A terapia não é só um espaço para “resolver problemas”. É um espaço para se escutar com mais profundidade do que o mundo permite. Um lugar onde a sua história é acolhida sem julgamentos. Onde a sua dor faz sentido. Onde, com tempo e vínculo, regressa a “casa”, isto é, retorna a si.

Na relação terapêutica, abrimos as portas do que ficou congelado. A pouco e pouco, desmontamos o “poste” interior ao qual ainda está amarrada. E vai descobrindo — às vezes com espanto — que é muito mais do que aquilo que a ensinaram a ser. Que pode escolher um outro caminho que não seja o da dor e da resistência constante.

Porque ser forte não é não cair. Ser forte é, talvez, finalmente, permitir-se parar de aguentar tudo sozinha.

É longa esta lista de dificuldades advindas do desenvolvimento de uma posição existencial marcada pelo “desamparo aprendido” mas a do caminho para a cura também.

No entanto, ele tem sempre que começar com a consciência dos nossos próprios padrões e das formas como nós tentamos insensibilizar-nos para os desconfortos quando eles aparecem.

— Perceba os seus gatilhos. Perceba o movimento da sua energia e o que ela lhe pede, nos momentos de ira. Perceba o seu corpo e os seus pensamentos.

— Perceba tudo (ou o mais que puder) sobre si. Este é o primeiro passo.

— Os desequilíbrios surgem como medida de protecção contra algo, como fenómeno compensatório.

Em última instância, todas as patologias são patologias da relação. E, entre muito mais, é isso que fazemos nas sessões de psicoterapia. Procuramos na “arqueologia” da nossa mente quais as relações que causaram a necessidade da pessoa se proteger, fechando-se. Quais as origens dos seus medos. Há sempre um “ganho secundário” numa patologia, e perceber o que se “ganha” com o mecanismo desenvolvido ajuda a voltar atrás e a perceber a origem da descompensação.

Todos merecemos uma vida plena e o caminho para a individuação, apesar de por vezes difícil, é repleto de desafios. São justamente esses desafios que nos permitem sentir a plenitude da vida e desenvolver competências e recursos internos para amadurecer. Porque se crescer dói, não crescer (acredite!) dói mais ainda…

E isso… isso pode ser o início de algo profundamente libertador. E transformador.


Sara Ferreira

Email: apsicologasara@gmail.com

Site: www.apsicologasara.com

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