Já alguma vez sentiu que, durante uma discussão, a sua perceção da realidade foi alterada, chegando a duvidar da sua memória e do seu próprio julgamento, após a insistência do outro lado em frases como “isso não foi bem assim” ou “está a exagerar”? O gaslighting é uma forma de abuso psicológico subtil, mas profundamente destrutiva, que ocorre quando alguém manipula, de forma repetida, a perceção da realidade da outra pessoa, até esta começar a duvidar da sua memória, das suas emoções e do seu próprio julgamento.
Segundo a psicóloga clínica Cátia Silva, não surge em episódios isolados: “Talvez por isso, tantas vezes passa despercebido ou é normalizado, sobretudo em relações íntimas. Porque vem disfarçado de preocupação, de ‘estás a exagerar’, de ‘isso não aconteceu assim’, de ‘és demasiado sensível’. E, pouco a pouco, a pessoa deixa de confiar em si”, esclarece.
Cátia Silva, Psicóloga Clínica
Mas como conseguimos perceber que estamos a ser vítimas de gaslighting? Este comportamento torna-se evidente quando existe uma discrepância constante entre aquilo que a pessoa vive internamente e a forma como essa experiência é negada, distorcida ou desvalorizada pelo outro.
Além disso, há sinais de alerta que surgem de forma recorrente, como a desvalorização continuada das emoções (“isso não é nada”, “estás a fazer um drama”); a minimização de comportamentos ofensivos ou agressivos; a transferência constante de culpa; e a exigência implícita de uma autorresponsabilização excessiva.
Com o tempo, aparecem outros indicadores mais silenciosos, consequência deste tipo de abuso: medo de expressar opiniões para evitar conflitos, pedidos de desculpa sem saber bem porquê, tendência para confiar mais na versão do outro do que na própria.
“Aqui, o desgaste é interno. A autoestima fragiliza-se. A clareza perde-se. A confiança diminui. As consequências psicológicas não aparecem de um dia para o outro, mas deixam marcas: ansiedade persistente, confusão cognitiva, dificuldade em decidir, dependência crescente de validação externa. Tudo isto tem impacto real na saúde mental”, refere Cátia Silva.
Felizmente, existem formas de contrariar o gaslighting e de quebrar este padrão. A especialista refere que o primeiro passo é reconhecer, precisamente, o padrão: “Validar a própria experiência é um ato de proteção psicológica”, diz Cátia.
Reduzir a exposição a interações invalidantes, estabelecer limites claros e registar acontecimentos de forma objetiva ajuda a recuperar a clareza e o sentido interno — não para provar nada ao outro, mas para voltar a confiar em si.
O acompanhamento psicológico especializado torna-se, também, essencial nestas situações: não só para reorganizar a perceção da realidade, mas para reconstruir a autonomia emocional e restaurar a confiança no próprio julgamento.