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Porque é tão difícil pedir desculpa?

Mais do que admitir um erro, pedir desculpa implica confrontar vulnerabilidades profundas. Uma psicóloga explica por que evitamos fazê-lo e como aprender a pedir desculpa de forma saudável.

Para muitos, pedir desculpa é uma das coisas mais difíceis de dizer numa relação, seja amorosa, familiar ou profissional. Há quem lhe chame orgulho ou insensibilidade. Para Cátia Silva, psicóloga, a resposta não está na linguagem, mas sim naquilo que o pedido de desculpas representa em si: “Quando pedimos desculpa, não estamos apenas a reconhecer um erro. Estamos a confrontar-nos com partes nossas que preferíamos não ver, como falhas, impulsos, inseguranças e o medo de rejeição. Para muitas pessoas, isto pode ativar uma sensação de ameaça interna, como se admitir o erro fosse sinónimo de perder valor. Não é, mas o cérebro emocional nem sempre funciona com lógica”, explica.

Cátia Silva, Psicóloga Clínica

quatro motivos principais que a psicóloga diz serem os responsáveis por nos custar tanto pedir desculpa:

  1. Implica vulnerabilidade: assumir que errámos coloca-nos numa posição de exposição. Para quem cresceu em ambientes onde o erro era criticado ou punido, pedir desculpa não ativa responsabilidade, ativa vergonha. E a vergonha fecha, não abre;
  2. Ativa o ego: não no sentido de arrogância, mas sim como um mecanismo de defesa. O ego tenta proteger a nossa identidade e, para isso, cria justificações, minimiza comportamentos ou inverte responsabilidades. É aqui que surgem frases como “mas tu também fizeste…” ou “não foi bem assim”. Frases que parecem defesa, mas que, na prática, afastam;
  3. Medo da rejeição: e se a outra pessoa não aceitar? E se não for suficiente? Este medo faz com que muitas pessoas adiem ou evitem completamente o momento de pedir desculpa;
  4. Falta de literacia emocional: este é um fator que aparece com frequência na prática clínica. Muitas pessoas não sabem identificar o que sentiram, muito menos expressar isso de forma clara. Sem consciência emocional, não há responsabilidade emocional. Não porque não queiram, mas porque nunca aprenderam.

O problema é que, quando se evita um pedido de desculpas, não se está a eliminar o erro, mas sim a prolongar o impacto: as relações começam a acumular ressentimento; pequenas situações tornam-se grandes; e, com o tempo, instala-se uma desconexão silenciosa, difícil de nomear, mas impossível de ignorar.

“Ignorar, evitar ou justificar constantemente cria uma ilusão de proteção, mas, no fundo, provoca afastamento interno e externo”, explica a especialista. Neste sentido, torna-se importante perceber que pedir desculpa não é apenas dizer “desculpa”. É um processo emocional e relacional que pode ser aprendido.

Posto isto, Cátia Silva ensina a pedir desculpa:

  • Reconhecer o erro de forma clara: sem rodeios, sem justificações escondidas. “Eu errei quando falei contigo daquela forma.” Uma frase direta vale mais do que três parágrafos de explicação;
  • Assumir responsabilidade sem o “mas”: o “mas” invalida tudo o que vem antes. Responsabilidade não é culpa excessiva, é maturidade emocional. São coisas diferentes;
  • Validar o impacto no outro: mesmo que não tenha havido intenção de magoar, o impacto existe. Dizer “Percebo que isso te tenha magoado” é reconhecimento. E o reconhecimento repara e pode até minimizar o impacto do ato;
  • Expressar genuinamente o arrependimento: sem dramatizar, sem minimizar. Apenas com honestidade. Isso, por si só, já é muito;
  • Mostrar intenção de mudança: desculpas sem mudança perdem valor com o tempo. Uma frase basta: “Vou estar mais atento à forma como comunico contigo”;
  • Dar espaço à outra pessoa: nem sempre a resposta é imediata, e está tudo bem. Pedir desculpa não garante perdão, mas abre espaço para reparação. E isso, muitas vezes, é o suficiente para começar.

“Pedir desculpa não nos diminui. Mostra consciência, responsabilidade e capacidade de relação”, conclui a psicóloga.

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