Provavelmente já deu por si, durante umas férias, a encantar-se pelos sítios menos turísticos, mas que contam tantas histórias. Uma rua escondida, uma aldeia no meio do nada ou um monumento que ficou esquecido no meio de tantos outros. Ligia Vargas, apresentadora e historiadora de arte, percebeu, durante as suas muitas viagens, que os locais mais interessantes nem sempre eram os mais conhecidos. De forma a satisfazer a vontade de “revelar camadas invisíveis dos lugares e mostrar que viajar pode ser muito mais do que visitar os principais monumentos”, lançou o programa “Fora do Mapa”, no Canal Travel Plus, o primeiro canal gratuito brasileiro dedicado ao Turismo. A primeira temporada foi gravada em Portugal, em maio, e revela um país histórico e cultural ainda pouco explorado pelo público brasileiro. O programa tem estreia prevista para julho.
Ligia Vargas em entrevista
Como nasceu a ideia para este programa?
O Fora do Mapa nasceu de uma inquietação que me acompanha há muitos anos. Quando frequentava as faculdades de Comunicação e História da Arte, já sentia uma vontade enorme de juntar as duas áreas através de um programa que me permitisse partilhar os conhecimentos culturais que o curso me proporcionava. E, com o passar do tempo, como historiadora da arte e viajante, fui percebendo que os locais mais interessantes nem sempre são os mais famosos. Muitas vezes, a verdadeira alma de um destino está escondida numa rua discreta, numa tradição antiga ou numa história que quase ninguém conta. O programa ajuda-me a satisfazer essa vontade de revelar camadas invisíveis dos sítios e a mostrar que viajar pode ser muito mais do que visitar os principais monumentos.
Porquê Portugal?
Porque Portugal é um país que, de modo geral, conhecemos muito menos do que imaginamos e que, particularmente, já tive a oportunidade de morar e viajar com frequência. Além disso, para os brasileiros, existe uma ligação afetiva e histórica evidente, mas muitas vezes limitada a referências superficiais. Quis começar justamente por um país que faz parte da nossa identidade, é como se estivéssemos a descobrir histórias que fazem parte da nossa genealogia. Portugal é familiar e surpreendente ao mesmo tempo.

O que a continua a surpreender?
A quantidade de histórias escondidas em lugares aparentemente simples. Muitas vezes, uma pequena praça, um prato típico, uma taberna ou uma aldeia guardam narrativas tão fascinantes quanto os grandes monumentos. Também me surpreende a forma como o património está integrado na vida quotidiana das pessoas. Em Portugal, a história não está apenas nos museus, ela continua viva e faz parte do quotidiano.
Tem um carinho especial pelo país?
Sem dúvida! E esse carinho só cresce a cada visita. Portugal tem uma capacidade que me encanta de preservar a sua memória sem deixar de ser contemporâneo. É um país onde encontramos vestígios de diferentes povos, culturas e épocas que convivem naturalmente no dia a dia.

Quando fala num Portugal “fora do mapa”, a que se refere?
Estamos a falar de olhar para Portugal para além dos roteiros tradicionais. Não significa ignorar lugares conhecidos, mas descobrir o que existe por trás deles. É encontrar as histórias menos divulgadas, os costumes que resistiram ao tempo, os locais que ajudam a compreender melhor a identidade portuguesa. O “fora do mapa” é uma forma de viajar fora do óbvio, com mais profundidade e curiosidade.
Houve algum critério específico na escolha dos locais?
Sim. Procurei lugares que contassem histórias sobre a formação cultural de Portugal e que, ao mesmo tempo, despertassem curiosidade. A escolha não foi feita apenas pela beleza dos locais, mas pela capacidade de cada um revelar algo surpreendente sobre o país, a sua memória, suas tradições e também a sua influência no mundo.

Quais foram os sítios de que mais gostou?
É uma pergunta difícil, porque cada região marcou-me de forma diferente. O Douro impressionou-me pela relação extraordinária entre a paisagem, a natureza e o ser humano. Guimarães emocionou-me pela força da sua herança histórica, a paixão das pessoas que lá vivem pelo local e a forma como lugares da Idade Média permanecem vivos. Já Lisboa continua a fascinar-me pela quantidade de camadas culturais que convivem na mesma cidade. São sítios muito diferentes, mas todos contam capítulos essenciais no desenvolvimento da história portuguesa.
O que podemos esperar dos episódios?
Podem esperar lugares cheios de histórias, cultura, curiosidades, tradição, gastronomia e muitas histórias surpreendentes contadas por pessoas que vivem essas experiências e, gentilmente, compartilharam comigo. Mas, acima de tudo, podem esperar contexto. Não mostramos apenas os locais, mostramos porque são importantes, como influenciaram a sociedade e de que forma continuam presentes na vida contemporânea. É um programa sobre destinos, mas também sobre pessoas e identidade.
Qual o maior desafio durante estas duas semanas de gravações?
O maior desafio foi escolher o que deixar de fora. Portugal tem uma riqueza cultural impressionante e, a cada local visitado, surgiam novas histórias que mereciam ser contadas. Eram muitos detalhes e foi um desafio constante equilibrar profundidade, ritmo televisivo e o desejo de mostrar o máximo possível.

Sente que o programa irá enriquecer, não só o público brasileiro, como o português?
Espero que sim. Para os brasileiros, o programa oferece uma oportunidade de compreender melhor algumas das raízes da nossa própria cultura. Para os portugueses, acredito que pode ser um convite para redescobrir o seu país através de um olhar externo, curioso e apaixonado. Muitas vezes, quem vive num lugar deixa de perceber a riqueza extraordinária que existe à sua volta. Então torço para que esta temporada provoque o desejo nos espetadores de irem à procura da riqueza cultural que existe por trás do que mostramos nos episódios.
A ideia será, depois, partir à descoberta de outros países?
Sem dúvida. O “Fora do Mapa” foi concebido para ser uma série internacional. Portugal foi o ponto de partida perfeito, mas a proposta é continuar a explorar destinos que possuam histórias fascinantes e ligações culturais relevantes.

Já sabe para onde partirá a seguir?
Existem alguns países que estão a ser estudados para futuras temporadas, mas, para já, o foco é levar o público a descobrir um Portugal que muitos ainda não conhecem.



