Há qualquer coisa de quase infantil na forma como esperamos por Setembro. Como se Agosto fosse uma espécie de parêntesis e Setembro viesse, pontualmente, devolver-nos a vida — mas uma vida melhor. Mais organizada. Mais saudável. Mais produtiva. Mais disciplinada. Mais parecida com aquela mulher que imaginámos que seríamos quando finalmente tivéssemos tudo sob controlo.
Em Setembro vamos ao ginásio. Em Setembro começamos a dieta. Em Setembro acordamos mais cedo. Em Setembro organizamos a agenda. Em Setembro retomamos aquele projecto. Em Setembro deixamos de procrastinar. Em Setembro pomos a vida em ordem.
E, de preferência, pomos também o corpo, a casa, a carreira, a relação, os filhos, a alimentação, o sono e a cabeça. Tudo isto, naturalmente, antes do dia 15.
Há qualquer coisa de profundamente sedutora nesta fantasia de recomeço. Eu própria reconheço essa tentação: a ideia de que uma mudança de calendário pode produzir a sensação de que também nós mudámos. Que uma página nova pode, de alguma maneira, apagar o cansaço da anterior.
Talvez seja por isso que Setembro tenha este estranho poder psicológico. Não é apenas o mês do regresso. É o mês da promessa. A promessa de que desta vez vamos conseguir.
Mas conseguir o quê, exactamente?
É uma pergunta que me ocorre cada vez mais. Porque talvez não precisemos de começar tudo de novo. Talvez precisemos parar. Parar o suficiente para perceber de que estamos, afinal, a fugir.
Vivemos numa cultura que nos ensinou a responder ao desconforto com acção. Estamos cansadas? Organizamos melhor o tempo. Estamos ansiosas? Fazemos uma lista. Estamos insatisfeitas? Estabelecemos objectivos. Sentimo-nos perdidas? Criamos um plano. Não sabemos o que fazer da nossa vida? Fazemos um ‘vision board.’
E não há nada de errado com agendas, objectivos, ginásios ou listas de tarefas. O problema começa quando a produtividade deixa de ser uma ferramenta e passa a ser uma estratégia emocional. Quando fazer nos impede de sentir. Quando estar permanentemente ocupadas nos poupa à pergunta que mais tememos responder: “Estou realmente feliz com a vida que estou a construir?”
É que há perguntas para as quais uma agenda não tem resposta. E há dores que não se resolvem com uma rotina matinal às 6 da manhã. Às vezes, aquilo que parece falta de disciplina é exaustão. Aquilo que parece procrastinação é medo. Aquilo que parece falta de motivação é tristeza. Aquilo que parece necessidade de organização é ansiedade. E aquilo que chamamos “querer melhorar” pode ser, algumas vezes, apenas a incapacidade de aceitar que alguma coisa na nossa vida precisa de mudar — e que essa mudança talvez não tenha nada a ver com sermos mais eficientes. Talvez tenha a ver com sermos mais honestas.
É por isso que me inquieta um pouco esta nossa obsessão contemporânea com a melhor versão de nós próprias. Melhor segundo quem? Mais bonita sob o critério de quem? Mais magra de acordo com quem? Mais produtiva em relação a quem? Mais desejável na óptica de quem? Mais bem-sucedida à luz de quê ou de quem?
Há mulheres que passam décadas a aperfeiçoar-se sem nunca perguntarem se gostam da pessoa que estão a tentar aperfeiçoar. E talvez esta seja uma das formas mais subtis de auto-abandono. Não nos abandonamos apenas quando aceitamos que alguém nos trate mal. Às vezes abandonamo-nos quando passamos tanto tempo a tentar corresponder que já não sabemos distinguir aquilo que queremos daquilo que aprendemos que deveríamos querer.
É aqui que Setembro, para mim, começa a ganhar outro significado. Porque talvez o verdadeiro regresso não seja ao trabalho, à escola, ao ginásio ou à rotina. Talvez seja um regresso a nós. E regressar a nós pode ser desconfortável. Porque implica silêncio. E o silêncio tem uma coisa particularmente inconveniente: não nos deixa continuar a fugir.
É muito mais fácil preencher a agenda do que escutar o vazio. Muito mais fácil marcar uma consulta, uma aula, uma reunião, um jantar, uma viagem, um projecto. Muito mais fácil estar sempre a caminho de qualquer coisa do que chegar finalmente a nós próprias.
Há mulheres que vivem permanentemente em “modo projecto”. Estão sempre a trabalhar em qualquer coisa: no corpo, na carreira, na relação, na maternidade, na auto-estima, na casa, na próxima etapa. Como se a vida fosse um ‘work in progress’ que nunca pudesse ser habitado enquanto não estivesse suficientemente acabado. Mas talvez a vida não seja uma obra que temos de terminar antes de podermos começar a vivê-la. Talvez possamos simplesmente entrar nela. Mesmo imperfeitas. Mesmo cansadas. Mesmo sem saber. E talvez seja precisamente aí que começa a parte mais difícil.
Porque, quando paramos de tentar ser melhores, começamos inevitavelmente a perguntar-nos quem somos. E esta pergunta leva-nos, muitas vezes, muito mais atrás do que gostaríamos. Leva-nos à infância. À família. Às primeiras ideias que aprendemos sobre amor. Sobre homens. Sobre mulheres. Sobre aquilo que uma mulher deve suportar para ser considerada boa. Sobre aquilo que precisa de oferecer para ser escolhida. Sobre aquilo que não pode dizer para não perder. Sobre o tamanho que pode ocupar numa sala, numa relação, numa família, numa vida.
Estamos a viver um momento profundamente importante entre mulheres e homens. Muitas mulheres estão finalmente a olhar para trás e a perceber a dimensão do preço que pagámos por séculos de patriarcado e misoginia. Pagámos com o corpo. Com a liberdade. Com a segurança. Com o silêncio. Com a culpa. Com relações onde aprendemos a confundir amor com sacrifício. E estamos a fazer perguntas que talvez as nossas mães e avós não tenham tido condições para fazer.
Estamos a dizer às nossas filhas coisas que muitas de nós precisámos de aprender já adultas: que não precisam de ser agradáveis para serem amadas. Que podem dizer não. Que podem ocupar espaço. Que não devem confundir medo com respeito. Que não têm de suportar o insuportável para provar que amam. Que o corpo delas não é propriedade de ninguém. Que não precisam de diminuir-se para que um homem se sinta grande. É um progresso extraordinário. Mas há uma revolução que acontece muito mais devagar. A que acontece dentro de nós.
Porque podemos defender a igualdade e continuar, internamente, a viver segundo velhas regras. Podemos dizer à nossa filha para não aceitar migalhas e continuar nós próprias emocionalmente disponíveis para homens que só nos dão migalhas. Podemos dizer a uma amiga que ela merece mais e continuar numa relação em que pedimos desculpa por ter necessidades. Podemos falar de amor-próprio e continuar a acreditar, secretamente, que precisamos ser mais bonitas, mais interessantes, mais magras, mais compreensivas ou mais indispensáveis para sermos escolhidas.
É aqui que a história se torna mais complexa. Porque o patriarcado não vive apenas nas leis, nas instituições ou nos comportamentos dos homens. Também pode viver dentro das mulheres. Nas vozes internas que herdámos. Na culpa automática. Na necessidade de agradar. No medo de desiludir. Na dificuldade em estabelecer limites. Na ideia de que descansar é preguiça. Na sensação de que ser necessária é a mesma coisa que ser amada.
E muitas dessas primeiras aprendizagens aconteceram através da mulher que, para muitas de nós, foi a primeira grande professora do amor: a nossa mãe.
É uma afirmação delicada. E talvez por isso precise de ser feita com cuidado. Olhar para a ferida materna não é culpar a mãe. Não é transformar mães em vilãs nem ignorar tudo aquilo que elas fizeram por nós. É tentar compreender. Porque também as nossas mães foram filhas. Também elas receberam um guião. Também aprenderam, muitas vezes, que uma boa mulher aguenta, perdoa, cuida, tudo compreende, não faz ondas, não pede demasiado, mantém a família unida e coloca os outros antes de si.
Algumas cresceram numa época em que uma mulher independente era vista como ameaça, uma mulher sexualmente livre como perigo, uma mulher sem filhos como incompleta, uma mulher divorciada como fracasso e uma mulher que dizia “não” como egoísta.
Como poderiam transmitir-nos uma liberdade que elas próprias nunca lhes foi ensinada?
Não se trata de as culpar. Trata-se de interromper a transmissão. Porque compreender de onde vem uma herança não significa que tenhamos de continuar a carregá-la. Talvez uma das formas mais adultas de amar a nossa mãe seja conseguir dizer: “Eu percebo porque fizeste assim. Mas eu já não preciso de fazer assim.” Talvez ela tenha aprendido que amor era ficar. Nós podemos aprender que amor também é poder partir. Talvez ela tenha aprendido que uma mulher segura a família mesmo quando se desfaz por dentro. Nós podemos ensinar às nossas filhas que uma mulher também pode dizer: “Eu não consigo.” Talvez ela tenha aprendido a engolir a raiva. Nós podemos aprender a escutá-la. Talvez ela tenha aprendido que ser boa era não incomodar. Nós podemos descobrir que ser inteira é, às vezes, exactamente o contrário.
E talvez seja por isso que a chamada “ferida materna” seja menos uma história sobre culpa e mais uma história sobre consciência. Porque aquilo que não compreendemos, repetimos. Aquilo que compreendemos, podemos começar a escolher. E há escolhas que mudam uma vida.
Dizer não. Sair. Ficar. Pedir. Receber. Descansar. Desejar. Deixar de explicar. Deixar de provar. Deixar de tentar ser a mulher perfeita para alguém que nunca aprendeu a vê-la.
Há uma frase que me ocorre muitas vezes quando penso nisto: talvez algumas mulheres estejam há anos a tentar tornar-se a mulher que finalmente será impossível abandonar. Mais bonita. Mais magra. Mais disponível. Mais interessante. Mais sexual. Mais compreensiva. Mais paciente. Mais bem-sucedida. Mais tudo. Tudo e mais alguma coisa.
Como se o abandono fosse sempre uma sentença sobre o nosso valor e nunca uma informação sobre a capacidade do outro para amar. E é aqui que a fuga se disfarça de mudança. Porque mudar é escolher. Fugir é tentar tornar-nos irrepreensíveis para que nada de mau nos aconteça.
Em Setembro, mudar pode significar deixar de viver uma relação que nos diminui. Fugir pode significar começar uma dieta para tentar sentir que finalmente merecemos o nosso próprio corpo. Mudar pode significar reconhecer que estamos exaustas. Fugir pode significar preencher ainda mais a agenda. Mudar pode significar admitir que não queremos aquela vida. Fugir pode significar construir uma vida cada vez mais eficiente que não temos coragem de questionar. É uma diferença subtil. Mas decisiva.
Por isso, talvez este Setembro não precise de nos encontrar com uma lista de resoluções. Talvez precise de nos encontrar com algumas perguntas. O que estou a tentar melhorar em mim que, na verdade, preciso primeiro de compreender? O que estou a fazer incessantemente para não sentir? Que parte da minha vida parece perfeita por fora e me deixa vazia por dentro? Que ideia sobre o que é ser mulher continuo a obedecer sem sequer saber de onde veio? O que aprendi sobre o amor que já não quero ensinar às minhas filhas — nem continuar a ensinar a mim própria?
E talvez a pergunta mais difícil: quem sou eu quando deixo de tentar ser necessária, desejável, impecável ou forte?
Talvez não gostemos imediatamente da resposta. Talvez ela venha acompanhada de lágrimas. Talvez venha acompanhada de raiva. Talvez venha com uma vontade enorme de mudar tudo. Mas talvez, pela primeira vez, não seja preciso mudar tudo. Talvez seja preciso ficar. Ficar connosco. Sentar ao nosso lado. Ouvir aquilo que durante anos tivemos demasiado trabalho para escutar. Porque há uma diferença enorme entre transformar a nossa vida e finalmente habitá-la. E talvez seja essa a revolução que nos falta. Não a revolução de nos tornarmos uma “mulher nova”. Mas a revolução silenciosa de deixarmos de tentar ser a mulher que nos ensinaram que devíamos ser.
Setembro pode, então, ser muito mais do que um recomeço. Pode ser uma espécie de regresso a casa. Não à casa onde nascemos. À casa que somos. A nós mesmas. À mulher que ficou debaixo de todas as versões que construímos para sermos aceites. À mulher que talvez tenha aprendido cedo demais a ser forte. À mulher que se tornou competente para não precisar de pedir. À mulher que se tornou indispensável para se sentir segura. À mulher que confundiu paz com silêncio. À mulher que confundiu amor com esforço e com conivência. À mulher que confundiu ser boa com desaparecer.
Talvez esteja na altura de a irmos buscar. Sim, a essa mulher. Não para a tornar melhor. Não para a corrigir. Não para a transformar num novo projecto. Mas para lhe dizer, finalmente: podes parar. Já não precisas fugir. Podes ocupar espaço. Podes querer. Podes desquerer. Podes dizer não. Podes ser amada sem te abandonares. E talvez seja esse o verdadeiro significado de recomeçar. Não começar outra vida. Voltar à nossa. Porque talvez Setembro não nos peça uma vida nova. Talvez nos peça a coragem de voltar àquela que andamos há demasiado tempo a adiar.
Sara Ferreira

Email: apsicologasara@gmail.com
Site: www.apsicologasara.com



