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Não nos curamos sozinhas

Fomos ensinadas a acreditar que temos de dar conta de tudo sozinhas. Mas o corpo conta outra história.

Existe uma versão do nosso processo que é muito importante — e que muitas de nós conhecemos bem. É a versão do eu sou. Aquilo que EU SOU comigo mesma. O que escrevo no diário quando ninguém está a ver. A meditação num canto que é só meu. O meu momento em silêncio. A ideia, subtil, mas persistente, de que o crescimento pessoal começa de dentro para fora.

E isso é, genuinamente, muito verdade.

Mas há algo que também alimenta esse espaço interior. Algo que, ao longo dos anos, tem vindo a convidar-nos a ampliar a nossa visão — sobre nós, sobre os outros, sobre o que nos move quando nos permitimos mover juntas. Algo que a ciência já confirma e que as tradições mais antigas nunca esqueceram: a forma como as pessoas se curam em comunidade.

A neurociência tem uma expressão para isso: corregulação. O sistema nervoso de um ser humano regula-se, em parte, através do contacto com o sistema nervoso de outro. Não é metáfora. É fisiologia. Bebés acalmam no colo porque o ritmo cardíaco da mãe literalmente sincroniza com o deles. Adultos em estados de ansiedade elevada regulam-se mais rapidamente na presença de alguém que se sente seguro do que quando estão sozinhos a praticar técnicas de respiração. Isso diz-nos algo fundamental sobre quem somos: viemos para viver em comunidade. O isolamento não é apenas emocionalmente difícil — é biologicamente stressante. E, por mais que a cultura contemporânea valorize a independência e a autossuficiência, há um limite fisiológico para o quanto conseguimos curar-nos sozinhas.

Cada vez mais, o bem-estar está a tornar-se social. Não no sentido superficial de partilhar nas redes sociais — mas num sentido mais profundo e mais antigo. As pessoas estão a mover-se juntas, a respirar juntas, a correr juntas, de forma cada vez mais intencional. Retiros em grupo, círculos de mulheres, caminhadas coletivas — experiências que não são sobre performance individual, mas sobre presença partilhada. Sobre estar com o outro, e isso muda tudo.

Durante muito tempo, construímos identidades em torno da capacidade de nos bastarmos a nós próprias. Mulheres que dão conta de tudo, que resolvem os seus problemas, que não precisam de ninguém. E houve circunstâncias em que essa capacidade nos protegeu — e é importante reconhecê-lo.

Mas há uma mentira silenciosa nessa narrativa. A ideia de que não precisar de ninguém é sinónimo de força. Porque o que vemos, cada vez mais, é o preço que essa crença cobra: um excesso de energia desalinhada, um desequilíbrio entre o que se dá e o que se recebe, entre o masculino e o feminino que habitam cada uma de nós. E, no final, paradoxalmente, um isolamento profundo — precisamente nas mulheres que “dão conta de tudo”.

Não a solidão de estar fisicamente sozinha. Isso pode ser escolha, pode ser solitude, pode ser sagrado. Estou a falar de outra coisa: a solidão de não conseguir deixar entrar. De ter construído uma fortaleza tão eficiente que já não se sabe como abrir a porta — nem se recorda de que havia uma.

Existe uma distinção que me parece fundamental: a diferença entre ter e ser.

Ter apoio é funcional. Alguém que ajuda quando há um problema. Alguém que está disponível quando se pede. Importante, sem dúvida — mas temporário. Circunstancial. Condicional.

Ser é outra dimensão. É presença. É pertencer. É a sensação de que, com problema ou sem problema, existe um lugar onde somos reconhecidas pelo que somos — não pelo que resolvemos, não pela versão bem composta que apresentamos ao mundo. Um lugar onde a vulnerabilidade não precisa de pedir licença para entrar, porque nós, por inteiro, já fazemos parte disso. Somos presença. Somos parte do processo.

E essa sensação — que as neurociências associam diretamente à ativação do sistema de recompensa, à diminuição do cortisol, ao fortalecimento da imunidade — está a tornar-se cada vez mais rara na vida adulta. O isolamento cresceu. As fortalezas multiplicaram-se. E a ausência de pertença tem um custo que raramente contabilizamos — mas que está cada vez mais evidente na sociedade em que vivemos.

O ter passa. O ser transforma.

Lembro-me de um retiro que conduzi há algum tempo. Entre as participantes havia uma mulher muito articulada, muito prática — uma presença que resolve tudo e raramente perde o fio. Num determinado momento, dentro de um exercício que era até bastante simples, ela já não conseguia parar de chorar.

Continuámos a prática e, no final, perguntei-lhe em que lugar aquele choro tinha tocado dentro dela. E ela disse, de forma muito aberta e genuína: «eu não me lembrava de como era ser vista sem ter de fazer nada para isso. Sem máscara, sem ter de ser outra coisa e sendo apenas eu».

Naquele momento, todas as pessoas do grupo perceberam exatamente o que ela queria dizer. E, de alguma forma, aquilo tocou o grupo inteiro.

É uma pergunta que deixo também para si, que está agora a ler isto: quantas vezes precisou de fazer alguma coisa para ser vista? 

Comunidade não é um suplemento de bem-estar. Não é o passo seguinte depois de resolver os seus problemas sozinha. A comunidade é o lugar onde a cura pode começar — não depois de estarmos prontas, mas precisamente porque ainda não estamos. Ou porque, simplesmente, sozinhas, é difícil demais.

Há algo que acontece quando nos permitimos estar em frente a outras pessoas no nosso espaço real — quando não precisamos de ter as respostas, quando a nossa presença já é suficiente. Sem adereços. Sem desempenho. Sem metas.

Isso não é fraqueza. É talvez o ato mais corajoso que muitas de nós podemos fazer.

E é por isso que, nesta revolução silenciosa que vivemos, os grupos crescem — grupos de corrida, de meditação, círculos de mulheres, comunidades das mais diversas formas. Não por moda. Por necessidade profunda de algo que sempre foi nosso e que, durante demasiado tempo, deixámos de lado.

Se há uma coisa que aprendi no meu trabalho — e na minha própria vida — é que a transformação no coletivo tem um impacto muito maior. É quando alguém faz uma pergunta que, no fundo, toca cada uma de nós. É quando a fala de uma pessoa representa outra que talvez não teve coragem de se manifestar. É no olhar que confirma: eu também sinto isso. Faz sentido.

A cura está no coletivo.

E talvez a coisa mais radical que possamos fazer — numa cultura que premia o individual acima de tudo — seja admitir que precisamos umas das outras. Não como falha. Como facto.

Que nos possamos preparar e abrir para os grandes encontros da vida.


Carolina Padilha 

Comunicadora de bem-estar, consciência e performance humana

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Instagram: @eusou.carolinapadilha 

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