Tenho 39 anos e vivo com asma grave. Os primeiros sintomas surgiram já na idade adulta, depois de uma bronquite particularmente agressiva. A partir daí, a minha vida mudou de forma progressiva: primeiro a asma, depois a asma grave, com sintomas sempre em agravamento.
Começou com um cansaço difícil de explicar, um peso constante no peito, como se o ar nunca fosse suficiente. Com o tempo, tarefas simples tornaram-se verdadeiros obstáculos: caminhar alguns metros, falar durante muito tempo ou subir um lanço de escadas passaram a exigir um esforço desproporcional.
A asma grave não é apenas falta de ar – é limitação, é o medo silencioso de uma crise a qualquer momento, é a sensação angustiante de perder controlo sobre algo tão essencial como respirar.
Depois de anos de agravamento contínuo, em 2014 iniciei tratamento com terapêutica biológica. Algo que até então desconhecia e em poucas semanas, comecei a sentir o que já não sentia há muito tempo: alívio. Aos poucos, o corpo foi respondendo e, com ele, regressou uma vida que julgava perdida. Voltar a fazer coisas simples, sem pensar na respiração a cada momento, foi uma conquista difícil de descrever.
Meses depois, surgiu um novo desafio: a primeira gravidez. Foi vivida com alegria, mas também com alguma incerteza. Tinha iniciado a terapêutica biológica há relativamente pouco tempo e, nessa altura, ainda existia pouca informação sobre a sua utilização durante a gravidez. A decisão foi manter o tratamento, garantindo o controlo da doença – uma condição essencial também para o bem-estar do bebé. Ainda assim, com alguma preocupação sobre um possível impacto.
Nos últimos meses, quando o corpo pesa mais e o espaço parece diminuir, cada respiração ganhava um significado diferente. E no momento do parto, a dúvida mantinha-se — haveria fôlego suficiente? Foi um desafio superado. E, anos mais tarde, decidi enfrentá-lo novamente. Já com mais evidências, com mais confiança e tranquilidade.
Hoje tenho dois filhos, com 10 e 4 anos. Duas crianças cheias de energia, com gargalhadas fáceis e um ritmo que nem sempre consigo acompanhar. Há dias em que brincar no chão, correr atrás deles ou simplesmente rir sem contenção pode ser o suficiente para desencadear sintomas. Há momentos em que a vontade de estar plenamente presente esbarra nos limites do corpo.
A rotina de uma família – preparar as manhãs apressadas, cumprir um dia de trabalho exigente e regressar a casa para continuar – pode transformar-se numa verdadeira prova de resistência. Entre brincadeiras, banhos, refeições e histórias antes de dormir, há dias em que o cansaço não é apenas cansaço: é falta de ar, é o corpo a pedir pausa. E é também nesses momentos que o apoio em casa faz a diferença, permitindo que tudo continue, mesmo quando o fôlego falha.
Nem sempre há fôlego para tudo. E isso pesa. Porque quando não se consegue acompanhar, fica muitas vezes a sensação de falhar – não por falta de amor ou de entrega, mas porque a asma grave impõe limites invisíveis aos outros, mas muito presentes para quem os vive.
Com o tempo, fui aprendendo a escutar o meu corpo, a respeitar os meus limites e, sobretudo, a valorizar cada pequena vitória. Cada dia, cada momento vivido com mais leveza, cada conquista conta.
A terapêutica biológica devolveu-me qualidade de vida, mas a asma grave continua presente. É uma doença invisível para muitos, mas muito real no dia a dia, no cansaço persistente, no peso no peito, na atenção constante à respiração.
Partilhar a minha história é dar forma a uma realidade muitas vezes silenciosa. É mostrar que, mesmo perante grandes limitações, é possível recuperar parte da vida, com o tratamento certo, acompanhamento adequado e uma adaptação constante.
Viver com asma grave é um equilíbrio diário. Entre o que queremos e o que conseguimos. E esse equilíbrio merece ser compreendido, apoiado e respeitado.
Ana Carvalho Sousa

Associação Asma Grave
www.asma-grave.org