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A essência do estilo pessoal não é sobre copiar tendências digitais

As tendências podem ser uma excelente fonte de inspiração. O problema surge quando passamos a segui-las sem critério.

Estamos numa época em que o acesso à moda é muito facilitado. Em poucos minutos acedemos a desfiles, campanhas, criadoras de conteúdo e milhares de sugestões de coordenados. A inspiração está disponível a toda a hora e em todo o lugar. 

À primeira vista, parece uma vantagem e em muitos aspetos é. A moda tornou-se mais acessível e mais democrática. Com isto damos conta de um novo problema que não é de todo o acesso à informação, mas à quantidade de informação sem filtro. 

Nos dias de hoje não somos apenas expostas à publicidade tradicional, mas a uma incrível quantidade de formas de publicidade alternativas. Abrimos o Instagram e vemos um “Get Ready With Me”, no vídeo seguinte surge mais um “Outfit of the Day”, seguido de sugestões de compras, links, tendências imperdíveis e peças que, alegadamente, vão transformar qualquer guarda-roupa. Além dos tags das marcas, seguem-se os hashtags de #pub, #parceira ou #oferta. 

A mensagem é subtil, mas está em todo o lado. Há sempre algo novo para descobrir ou comprar. E, sem nos apercebermos, começamos a sentir que aquilo que já temos talvez não seja atual, talvez não seja suficiente. Precisamos de mais e mais, para pertencer e para colmatar os nossos desejos. 

Ao longo dos anos, tenho observado uma mudança interessante nas clientes com quem me cruzo: continuam a existir armários cheios de roupa, mas agora existem também telemóveis cheios de referências de pastas no Pinterest, coleções guardadas no Instagram, capturas de ecrã acumuladas durante meses e looks para reproduzir. 

Temos mais inspiração do que nunca e, paradoxalmente, menos clareza. É frequente encontrar mulheres que guardaram centenas de imagens e que, apesar disso, continuam sem conseguir definir aquilo de que realmente gostam. 

Parte desta dificuldade resulta do ritmo a que consumimos moda atualmente. As redes sociais vivem da novidade e o algoritmo favorece aquilo que é novo, diferente e capaz de captar atenção em poucos segundos. Essa lógica faz sentido para uma plataforma digital, não para um guarda-roupa estruturado. 

O estilo não se constrói através da novidade permanente. As mulheres que, por norma, identificamos como tendo um estilo forte não são aquelas que mudam o guarda-roupa em função das tendências do momento e do que veem nas redes sociais. São as que sabem exatamente o que funciona no seu corpo, com coerência nas escolhas e respeito por aquilo que gostam. O conteúdo GRWM que visualizaram nessa manhã enquanto tomavam o pequeno-almoço não tem impacto na sua rotina de estilo e é esta consistência que lhes confere identidade própria. Talvez por isso, a série “Love Story”, disponível no Disney+, tenha voltado a colocar a Calvin Klein e Carolyn Bessette na ribalta ou expressões como o quiet luxury ou old money style nunca passem de moda. 

As tendências podem ser uma excelente fonte de inspiração, porque nos ajudam a atualizar o guarda-roupa e a descobrir novas formas de vestir uma mesma peça. O problema surge quando passamos a segui-las sem critério, substituindo a nossa própria visão pela validação constante do que vemos online noutra pessoa. 

Nem tudo o que funciona numa fotografia funciona na vida real. Uma imagem mostra um momento editado.  Não nos revela o contexto, o estilo de vida, a personalidade nem a relação que aquela pessoa tem com a roupa que veste.

Neste tempo em que acumulamos peças, mas também acumulamos referências, um grande exercício de estilo é aprender a filtrar e saber o que faz sentido para nós. O conceito de vestir bem não passa por conseguir acompanhar tudo o que se vê online, mas sim, por saber o que se gosta e se adapta à nossa realidade. E essa continua a subsistir fora dos ecrãs.  


Liliana Correia

Personal stylist na LC Fashion Consultancy

Curadora do evento Resale Gallery

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