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“Afinal há mais gente com saudades”: o Clube Postal desafia duplas a trocar cartas

E se, durante três meses, pudesse trocar cartas com alguém que não conhece? Esta é a proposta do Clube Postal, um clube de cartas criado por Mafalda Quintela que resgata o prazer de escrever à mão. A primeira edição já começou no dia 15 de janeiro, mas uma nova será anunciada em breve.

Há uma certa magia no ato de enviar uma carta por correio, daquelas escritas por nós com  intenção e cuidado. Muitos de nós nunca sentimos isto — uma consequência do mundo acelerado e digital em que vivemos, onde as mensagens voam em segundos e o tacto se perde no ecrã. Porém, isso pode estar prestes a mudar. O Clube Postal nasceu de uma ideia antiga, “daquelas que estavam guardadas talvez há mais de 10 anos”, de Mafalda Quintela, copywriter apaixonada pela escrita. Quando deu por si a constatar que a correspondência por correio estava a cair em desuso, decidiu dar vida a esse sonho: organizar um clube de escrita de cartas. A primeira edição — ou edição piloto — começou no dia 15 de janeiro e, durante três meses, os pares sorteados vão trocar cartas. O sucesso do projeto tem sido tal, que já há uma próxima edição à vista.

Mafalda Quintela

Como é que nasceu o Clube Postal?

O Clube Postal nasceu de uma ideia antiga, daquelas que estavam guardadas talvez há mais de 10 anos, quando dei por mim a constatar que a correspondência por correio estava a cair em desuso. Sou copywriter e gosto de escrever tanto por profissão como por hobby, mas sempre achei que as cartas ocupavam outro lugar — algures entre a funcionalidade, o diálogo e a expressão pessoal. Recentemente, inspirada pela Papelaria Moderna, o projeto da minha amiga Inês Maldonado, que pretende recuperar o prazer de escrever à mão com estacionário único, senti o apelo para contribuir para essa causa. Rapidamente organizei o Clube Postal para criar um incentivo à escrita de cartas e fazer desse hábito algo mais fácil e divertido e adaptado ao ritmo de hoje.

Como funciona?

É simples. As pessoas inscrevem-se numa edição e decidem se querem assinar em nome próprio ou pseudónimo. Quando fecham as inscrições, sorteiam-se parelhas entre todos os participantes e também um tema opcional para cada um. Anunciamos a cada um o seu par e, a partir daí, cada parelha troca 6 cartas pelo correio durante 3 meses. O Clube Postal serve como uma espécie de motivador, enviando notificações, dicas e lembretes para manter o ritmo dos envios.

Clube Postal

Ficou surpreendida com a adesão?

Muito surpreendida. Decidi começar o Clube Postal como um “trial”, convidando um grupo relativamente pequeno de amigos que eu já sabia que gostavam de escrever — achando que nem toda a gente se meteria nisto, e também para poder testar bem a dinâmica e ter um feedback mais próximo sobre a experiência dos participantes. Quando lancei a página e comecei a ver as partilhas a aumentar e várias pessoas a quererem juntar-se, fiquei surpreendida e muito feliz por perceber que afinal há mais gente com saudades de escrever cartas, e com vontade de recuperar esse tempo.

Numa era em que o digital ganha cada vez mais destaque, sente que projetos como este fazem falta?

Sim, acho que faz falta o equilíbrio. O digital é incrível e abre-nos um mundo de possibilidades. Mas tendencialmente é um mundo onde tudo acontece muito rápido e que exige de nós à mesma velocidade. Acho que ainda não estamos biologicamente programados para esse ritmo de estímulos, mas torna-se difícil estabelecer limites para preservar o espaço e o tempo que precisamos. O que procuro com este projeto é convidar a esse espaço, porque às vezes é mais fácil comprometer-nos com algo externo do que connosco próprios.

Estamos a voltar ao analógico?

Não acho que seja um regresso, mas já fico contente que seja uma visita. Acho que vamos continuar a evoluir pela tecnologia e pelo digital, mas acho que também precisamos de matéria – e por isso talvez continuemos a procurar no analógico a calma, concentração e as sensações que o digital não nos consegue dar da mesma forma.

Uma reflexão de Mafalda Quintela no Instagram do Clube Postal

Quais são os benefícios de aderir a um clube destes? 

Acho que o maior benefício é trazer uma dose de novidade e de foco ao nosso dia-a-dia. Ter algo que contraria o “lufa-lufa” e que permite exercitar a presença, o diálogo, a criatividade, a partilha, a aprendizagem e até alguma empatia. Acredito que escrever e ler cartas promove a descoberta de outros pontos de vista — nossos ou de alguém.

Vão existir mais edições? 

Sim, já estamos a preparar a próxima — que está prestes a ser anunciada.

A Edição Piloto começou no dia 15 de janeiro e vai até dia 15 de abril

A ideia é continuarem neste formato?

Para já sim, mas estamos a estudar como o formato pode evoluir para algo mais abrangente, além fronteiras (já há pedidos de pessoas que moram noutros países), ou até com edições temáticas ou especiais. Para já, vamos testar e consolidar este formato.

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