[wlm_register_Passatempos]
Siga-nos
Topo

Conversas difíceis: quando devemos falar com o nosso parceiro sobre infertilidade?

Por Ana Oliveira Pereira, Psicóloga Clínica e da Saúde da AVA Clinic

Qualquer casal constitui uma tríade: cada um dos parceiros com a sua personalidade, história pessoal, formas de reagir às dificuldades e os seus padrões de comunicação; e o próprio casal, com os esquemas de relação e comunicação que se criaram. A comunicação entre o casal é um dos fatores que mais afetam o equilíbrio da relação. Tendemos a pensar que basta o amor para que ela corra bem, mas todos sabemos como esta ideia não passa de um mito.

Viver uma situação de infertilidade é uma crise que põe à prova a relação, mas se bem gerida, na maioria dos casos traz maior proximidade ao casal. Daí que, quando um casal se confronta com a dificuldade em engravidar, deve desde logo estar mais atento à comunicação e fazer uso de todas as estratégias que comprovadamente a facilitam.

Nem sempre os dois parceiros estão na mesma etapa na relação ou em sintonia quanto ao momento de constituir família. Talvez a primeira conversa importante deva ser a clarificação de expectativas quanto ao desejo de ter filhos e quando. Os homens tendem a conviver melhor com a ideia de uma vida sem filhos, ao contrário das mulheres, para quem desistir da maternidade é, muitas vezes, algo impensável e penoso. Quando o comprometimento ou desejo de um é maior ou diferente do outro, convém lembrar que isso também pode acontecer com outros casais. Por vezes, será necessário negociar esta questão em função da importância da parentalidade para cada um, do contexto pessoal e profissional dos parceiros, sem esquecer do fator mais importante – a idade da mulher.

Não é comum que um casal antecipe dificuldades em engravidar, a não ser que tenha alguma condição de saúde prévia ou tenha convivido de perto com familiares ou amigos com essa dificuldade. Fala-se cada vez mais em infertilidade, mas, secretamente, cada pessoa acredita que é algo que lhe vai passar ao lado.

Se o casal decidiu que é o momento de constituir família, fez os exames pré-concecionais (como o espermograma, tantas vezes esquecido), será mais adequado não alimentar medos e deixar o tempo correr. É importante lembrar que pode demorar vários meses para que a gravidez surja. Se um dos parceiros, habitualmente a mulher, começar a ficar preocupada ao fim de 2/3 meses, melhor do que viver esse receio em segredo, será partilhar essas preocupações com o parceiro desde o início, para que este possa perceber alguns comportamentos e reações e, desde logo, dar o seu apoio emocional. É frequente que as mulheres comecem a monitorizar o seu ciclo menstrual, a programar a vida sexual do casal, a reagir com zanga a eventuais “recusas” sexuais do parceiro, sem que este perceba porquê.

As diferenças entre parceiros assumem um grande peso quando o casal se depara com a dificuldade em engravidar e a necessidade de procurar ajuda médica. Quando surge um diagnóstico de infertilidade, é esperado que surjam reações emocionais fortes – TRISTEZA, ZANGA, SENTIMENTO DE PERDA, CULPA e VERGONHA. É pouco provável que ambos os parceiros vivam da mesma forma e ao mesmo tempo cada uma destas emoções, o que traz desafios ao equilíbrio do casal.

É preciso tomar consciência que além das diferenças de personalidade de cada um, também existem diferenças na forma como mulheres e homens reagem à situação de infertilidade: mediante a importância que cada um atribui a ter filhos, no modo como reagem às dificuldades – se evitando ou enfrentando os problemas; se calando os medos ou ruminando incessantemente, se se distraem com outras atividades ou procuram informação sobre o problema. Estas diferenças podem criar alguma tensão e, por vezes, algum afastamento emocional, para evitar o conflito.

Cuidar da comunicação é, pois, uma das tarefas essenciais nesta fase. O que se deve fazer então para não criar um fosso? Falar, falar e falar! De forma clara, sem acusações, assumindo a sua própria vulnerabilidade.

É importante reconhecer e aceitar a natureza de cada um: se um parceiro é mais “agressivo” na procura de alcançar os seus objetivos, ter um parceiro habitualmente mais descontraído e, por isso, menos ansioso em relação à situação de infertilidade e aos tratamentos, pode ser interpretado como menor desejo de ter filhos. Por vezes não é falta de comprometimento, é uma expressão diferente “desse querer”.

São muito evidentes as diferenças de géneros na gestão das emoções, tanto nesta como noutras situações. Os homens podem ter mais dificuldade em expressar as emoções, até por proteção à parceira, e não sabem bem como lidar com a tristeza das companheiras. Sentem-se impotentes para as consolar e podem reagir de forma irritadiça, o que pode aumentar a insatisfação da mulher se isso a fizer sentir que o parceiro desvaloriza o que ela está a viver.

Os homens são habitualmente mais pragmáticos e orientados para a resolução dos problemas – “o que é preciso fazer?”. Tendem a lidar com os problemas de uma forma instrumental, ou seja, direcionada para a ação, se souberem o quê é suposto resolver e como. As mulheres tendem a ter um discurso implícito, ou seja, esperam que o seu companheiro perceba o que elas estão a sentir e que valide as suas emoções.

Será sempre mais eficaz expressar as necessidades emocionais de forma a que o outro  entenda: “Eu gostaria muito que…”; “Eu sinto-me muito feliz quando”; “Eu fiquei magoada(o) porque…”. É importante mencionar de forma clara o que precisa e espera do parceiro como apoio: como precisa que ele apoie no caso de vir uma nova menstruação, perante mais um insucesso nos tratamentos de fertilidade, etc.

Devido a estas diferenças na forma de comunicação, nos mal entendidos que vão correndo, podem surgir os ressentimentos, as “palavras duras”, os pensamentos acusatórios que se escondem, as propostas de divórcio por parte do parceiro infértil… As mulheres tristes e zangadas deixam de comunicar, isolam-se e não têm desejo de ter sexo, levando a que os parceiros se sintam rejeitados.

As mulheres que vivem a situação de infertilidade tendem a ruminar e a falar sobre o assunto de forma constante e o homem a “desligar” para se proteger. Uma estratégia útil é negociar períodos para se abordar o tema da infertilidade e dos tratamentos, sendo que nos outros momentos se fala de outros temas.

Por vezes surgem desacordos sobre como reagir a situações sociais constrangedoras e que causam sofrimento – anúncio de gravidezes por parte de familiares ou amigos, baby showers, festas de crianças… ou, mesmo, sobre se se deve contar a situação de infertilidade a familiares ou amigos. É importante que desde cedo exista um acordo que contemple a necessária privacidade, caso um dos parceiros dela precise (habitualmente o homem ou o elemento com infertilidade identificada), sendo também vantajoso partilhar a situação com elementos familiares ou amigos, que possam dar algum suporte emocional. Viver a infertilidade e os tratamentos em segredo é um fardo, por vezes, pesado. As mulheres tendem a procurar mais apoio em familiares e amigas enquanto os homens se focam em tarefas ou hobbies, partilhando apenas com um grupo muito restrito.

Uma boa comunicação entre o casal permite aceitar que se trata de uma fase de vida difícil. Ninguém consegue estar feliz durante este período. No entanto, é comum um ou ambos os elementos dedicarem um esforço emocional redobrado a suprimir as suas emoções negativas e aparentarem estar sempre bem durante o percurso de infertilidade.

Dadas as dificuldades emocionais esperadas e o tempo por vezes longo em que se vive a situação de infertilidade, pode ser benéfico procurar ajuda psicológica para que alguém externo ajude a normalizar as emoções e comportamentos de cada um, ajude a identificar esquemas comunicacionais menos eficazes, e a implementar estratégias que ajudem a viver esta fase, sem danos irreparáveis, na relação conjugal.


Ana Oliveira Pereira

Psicóloga Clínica e da Saúde da AVA Clinic

Veja mais em Opinião

PUB


LuxWOMAN