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Desafio: 30 dias de sexo

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Mas esta era, claro está, a minha visão da coisa. Para o outro lado envolvido, era a melhor ideia do mundo. E a diretora desta revista passou a ser, ainda que não se conhecessem, a sua nova melhor amiga.

Demorei cerca de uma semana a iniciar o projeto. Queria encher devidamente o peito de ar, tomar fôlego. Sabia que, quando começássemos não podíamos parar. Tinha de ser no dia certo, com a disposição certa. Como quando estamos para iniciar uma dieta, e vamos arrastando o dia do arranque. Até que, por fim, metemos mãos (e o resto) à obra.

Os primeiros dias foram uma beleza. Nada que não esperássemos. Afinal, uma semana inteirinha também nós já tínhamos conseguido, sem pastores a pregar ou revistas a convidar. E até parecia que o desafio, afinal, não ia ser difícil de cumprir. Engano.

Doze dias depois tive, pela primeira vez, vontade de lhe dar um soco no olho, quando se abeirou de mim. Estava exausta, depois de um dia carregado de entrevistas, depois de ir com dois miúdos ao pediatra, depois de ajudar um deles a estudar para um teste, depois dos três banhos dados, dos cinco jantares preparados, dos pijamas vestidos, das histórias lidas junto às respetivas camas. Tinha adormecido no sofá (ele também) e, quando chegámos à cama e ele me segredou que ainda não tínhamos “trabalhado”, juro que pensei em partir para a violência.

Como este episódio, houve mais alguns. Uma noite senti um enfurecimento feroz a tomar conta de mim. Foi quase uma violentação roubar-me ao entorpecimento noturno e juro que senti ganas de lhe bater a ele, de bater na diretora desta revista e principalmente de espancar o idiota do pastor Paul Wirth. Tinha sono e só queria era dormir.

Na verdade, cedo percebemos que para cumprir o desafio era essencial que tentássemos cair nos braços um do outro à hora do almoço e não deixar o amor para a noite. Nos filmes é à noite que tudo se passa, é mais propício, mais romântico, mais convidativo e tal, mas nos filmes eles não se sentem realmente como se tivessem sido atropelados por um Alfa Pendular por volta das 21h. E nós, na maior parte vezes, sentimos. De maneira que, como almoçamos quase sempre juntos em casa, não foi assim tão difícil. Às vezes era só um pouco estranho. Estava eu ali de roda dos tachos, a adiantar o almoço, e lá chegava ele para almoçar… duas vezes.

Vejamos: uma coisa é nos primeiros tempos de namoro. A gente chega a casa para almoçar e não almoça, está à volta de um bife na frigideira e deixa queimar, tem a mesa posta e vai tudo parar ao chão, não importa se a empregada está quase a entrar em casa e a apanhar-nos em flagrante ou se vamos chegar atrasados ao trabalho. Depois a gente cresce e (pelo menos em alguns de nós) as malucas das hormonas sossegam. Não é que já não sintamos desejo pelo outro. É claro que sentimos. Só já não é com o fervor de quem sente a pele a escaldar. Por isso, sim, houve dias em que foi estranho largar os bifes na frigideira ou interromper um texto para me dedicar aos prazeres da carne. Mas sabem que mais? Foi sempre bom. Melhor que um bife. Melhor que qualquer texto.

Uma das coisas boas deste desafio foi o prolongamento do erotismo para lá do momento. Aconteceu quase sempre uma troca cúmplice de olhares, durante o dia, que queria mais ou menos dizer: “Hoje já cumprimos o nosso ‘trabalhinho’.” Ou, pelo contrário, “ainda temos uma tarefa para cumprir hoje, vestes uma lingerie sexy mais logo?”. Isto acabou por dar um sabor gostoso aos nossos 30 dias. Como se o momento do sexo propriamente dito se esgueirasse para o resto dos dias, fazendo-nos sorrir por imaginar o que ainda estava para vir ou sorrir por recordar o que já se tinha passado. Esse erotismo prolongado no tempo é algo que pode bem fazer ressuscitar uma relação moribunda. Se não for esse o caso (como não era o nosso) pode bem dar-lhe um novo aquecimento. Um novo twist.

Outra das graças que isto teve foi a inveja provocada nos amigos. Não contámos a muita gente, até porque o segredo é a alma do negócio e os nossos 30 dias de sexo tinham como objetivo este texto que agora aqui se lê, mas contámos a um casal com quem estamos muitas vezes. Quando contei à minha amiga, a sua primeira reacção foi implorar: “Por amor de Deus, não contem isso ao meu marido! É que não me vai largar enquanto não nos metermos numa empreitada igual!” Lá está: eles, casados há muito menos tempo que nós, já sofrem as desigualdades sexuais da libido. Ela tem vontade de vez em quando, ele tem vontade o tempo todo. A ela um desafio como este soa a pesadelo, a ele soa ao melhor de todos os sonhos.

Passado pouco tempo, o marido da minha amiga já sabia. Ela não aguentou e contou-lhe (típico das mulheres: ai, não contes, não contes, e depois são as próprias que contam). Foi então que quase diariamente passámos a ser bombardeados com perguntinhas matreiras ou exclamações sardónicas tipo: “Então? Hoje já está?” ou “estás cansado, Ricardo?” ou “estás com boa carinha…” ou “olha para esse sorrisinho… Isso é que é, vê-se que andas contente!” ou “Estás mais magro…” Uma pândega, foi o que foi. Mas, por outro lado, estas bocas fizeram parte do tal pacote de erotismo prolongado no tempo de que falava há pouco. Como se, de repente, nós fôssemos uns tipos altamente lúbricos e, por isso, alvo de curiosidade e interesse científico.

Por muito parvo que pareça, isso fez-nos sentir mais próximos um do outro do que quando simplesmente deixávamos o sexo para aquele momento perfeito (e raríssimo) em que não estávamos mortos de cansaço e os miúdos estavam distraídos na sala ou em festas de aniversário longe de casa e tínhamos tempo e até apetecia e não era aquela altura difícil do mês, numa exótica e singular conjugação astral.

Francisco Allen Gomes, psiquiatra e um dos fundadores da Sociedade Portuguesa de Sexologia, tem a propósito desta ideia do sexo nos tempos modernos uma frase conhecida: “Faz-se sexo quando se pode, não quando se quer.” Ou seja, quando a tal exótica conjugação astral se alinha, num momento quase invulgar do universo, é aproveitar. E depressinha.

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