A pele dos bebés e das crianças apresenta características distintas da pele adulta, sobretudo devido à imaturidade funcional da sua barreira cutânea, que ainda se desenvolve ao longo do primeiro ano de vida. Esta condição torna a pele infantil mais delicada, permeável e vulnerável a agressões externas, como a radiação solar, exigindo cuidados e proteções específicas desde os primeiros meses.
Joana Nobre, Docente e Coordenadora da Pós-Graduação em Ciências Cosmetológicas – AHED | Nova Medical School, alerta para a importância da proteção infantil e revela os cuidados que os pais devem adotar durante o verão.
Joana Nobre, Docente e Coordenadora da Pós-Graduação em Ciências Cosmetológicas – AHED | Nova Medical School
Qual é a principal diferença entre a pele de um bebé ou criança e a pele de um adulto?
A principal diferença reside na imaturidade funcional da barreira cutânea durante a infância, especialmente nos primeiros meses de vida. Embora a pele dos bebés a termo seja estruturalmente semelhante à dos adultos no momento do nascimento, ela continua em processo de maturação ao longo do primeiro ano. Esta imaturidade traduz-se em diversos aspetos fisiológicos que tornam a pele da criança mais vulnerável a agressões externas, incluindo à radiação solar.
Desde logo, o estrato córneo é mais fino e menos coeso, o que se traduz numa maior perda de água transepidérmica (TEWL) e numa maior permeabilidade a substâncias exógenas. A composição lipídica, essencial para a integridade da barreira, apresenta-se também menos desenvolvida, com níveis inferiores de ceramidas e outros lípidos estruturais. Além disso, o pH cutâneo é mais elevado no nascimento, acidificando-se apenas gradualmente nas primeiras semanas, o que influencia a atividade enzimática e a colonização microbiana da pele. O tipo de parto também impacta esta colonização.
Do ponto de vista da resistência ao sol, a pele infantil apresenta menor capacidade de defesa. A melanogénese é funcionalmente imatura, o que significa que, apesar de os melanócitos estarem presentes, a produção e a distribuição de melanina ainda não oferece proteção eficaz contra os raios UV. Associando-se a isso a menor espessura da epiderme e a atividade antioxidante reduzida, conclui-se que a pele do bebé permite uma maior penetração da radiação ultravioleta e uma menor capacidade de neutralizar os danos oxidativos induzidos por essa exposição.
A pele da criança é, portanto, mais permeável, menos protegida e mais reativa, exigindo cuidados específicos e uma fotoproteção rigorosa desde os primeiros dias de vida (que não se resumem à aplicação do protetor solar), mesmo em bebés de termo saudáveis.
A principal diferença reside na imaturidade funcional da barreira cutânea durante a infância, especialmente nos primeiros meses de vida. Embora a pele dos bebés a termo seja estruturalmente semelhante à dos adultos no momento do nascimento, ela continua em processo de maturação ao longo do primeiro ano.
Por que razão a pele infantil é mais vulnerável à exposição solar?
A pele infantil é mais vulnerável à exposição solar devido a uma série de fatores fisiológicos imaturos que comprometem a sua capacidade natural de defesa contra a radiação ultravioleta (UV).
- Epiderme mais fina, que permite maior penetração da radiação UV nas camadas mais profundas da pele;
- Produção de melanina ainda insuficiente, já que a atividade dos melanócitos está presente, mas não totalmente desenvolvida, o que reduz a proteção pigmentar natural;
- Mecanismos antioxidantes subdesenvolvidos, tornando a pele menos capaz de neutralizar os radicais livres gerados pela exposição solar;
- E, em geral, uma barreira cutânea menos eficaz, com maior permeabilidade e menor coesão do estrato córneo, o que facilita a ação de agentes externos, incluindo os efeitos nocivos do sol.
Estas características tornam a pele das crianças particularmente sensível ao sol, com maior risco de queimaduras solares, inflamações e danos celulares cumulativos. Por isso, a fotoproteção rigorosa — através da evicção solar, vestuário adequado e protetores solares apropriados — é essencial durante a infância.
A partir de que idade é seguro usar protetor solar nos bebés? E que tipo de protetores são recomendados nessa fase?
Desde o nascimento. Recomendo um protetor solar com FPS 50+, anti-UVB e anti-UVA, desenvolvido especificamente para crianças e cuja marca comunique esta mesma característica específica. Importa ainda reforçar que o protetor solar deve ser corretamente aplicado, tanto na quantidade como na periodicidade.
Apesar de vermos algumas entidades tidas como referência a afirmar que antes dos 6 meses não deve haver aplicação de qualquer tipo de protetor solar, a ciência permite-nos atualmente ter no mercado cosméticos seguros formulados especificamente para bebés a partir do nascimento.
No entanto, é muito importante reforçarmos que antes dos 6 meses nenhum bebé deveria estar exposto ao sol, e que para além do protetor solar há todas as outras medidas complementares que são tão ou mais importantes que a aplicação do protetor.
Também ainda há a ideia de que até aos 3 anos apenas os filtros minerais (ou físicos) são aconselhados, mas isso já não é verdade. Os filtros orgânicos usados atualmente pelas marcas que posicionam os seus produtos para as peles dos bebés são seguros e adaptados, muito mais agradáveis e confortáveis, mesmo nos fototipos mais elevados.
Quais os ingredientes a evitar nos protetores solares infantis? Há componentes mais seguros ou naturais recomendados?
Se um protetor solar for formulado para pele infantil, se afirmar poder ser usado desde o nascimento e for usado como a marca indica, nada há a temer.
As substâncias que podemos usar nos cosméticos como filtros solares estão devidamente definidas e identificadas no Regulamento (CE) n.º 1223/2009 do Parlamento Europeu e do Conselho relativo aos produtos cosméticos, portanto só estes ingredientes podem ser usados para o efeito.
Uma associação comum ligada à expressão “filtros UV minerais” é a ideia de que são compostos naturais. Mais uma vez, trata-se de uma perceção errada. O dióxido de titânio e o óxido de zinco existem naturalmente em pequenas quantidades, mas não na forma que pode ser utilizada em protetores solares, requerendo por isso processamento industrial.
Os filtros utilizados em cosmética são modificações químicas de minerais e minérios, que na sua forma natural não são permitidos nem eficazes como proteção UV. Se um filtro UV é mineral ou não, é irrelevante para a sua função principal: proteger contra a radiação UV.
Por tudo isto, a designação correta deveria ser orgânicos ou inorgânicos, porque todos são químicos.
Desde o nascimento. Recomendo um protetor solar com FPS 50+, anti-UVB e anti-UVA, desenvolvido especificamente para crianças e cuja marca comunique esta mesma característica específica. Importa ainda reforçar que o protetor solar deve ser corretamente aplicado, tanto na quantidade como na periodicidade.
Como escolher um bom protetor solar para crianças – que características devemos ter em conta?
Escolher uma marca que desenvolva protetores solares específicos para pele infantil, num formato que os pais e as crianças (se já puderem opinar) gostem de usar. E, depois, claro, usar como deve ser usado, tanto na quantidade como na periodicidade. A quantidade aplicada impacta diretamente o desempenho do produto (deverão ser 2mg/cm2 de pele!) a aplicar 5-10 minutos antes da exposição solar independentemente do tipo de protetor. No que respeita à reaplicação, mesmo os que são resistentes ou muito resistentes à água, devem ser reaplicados a cada 2h, ou mais frequentemente se a crianças se molhar, transpirar ou friccionar muito a pele, com a toalha ou a areia, por exemplo.
Vários estudos recentes mostram que a maioria das pessoas aplica apenas 25 a 50% da quantidade recomendada — o que reduz substancialmente o nível real de proteção
Em situações de praia ou piscina, com que frequência deve o protetor ser reaplicado?
A cada 2 horas (independentemente do índice) e mais frequentemente se a criança se molhar ou transpirar. Lembrar sempre que dentro de água a radiação continua a afetar a pele.
Vários estudos recentes mostram que a maioria das pessoas aplica apenas 25 a 50% da quantidade recomendada — o que reduz substancialmente o nível real de proteção
Quais são os sinais de alerta de uma queimadura solar em bebés ou crianças e o que fazer nestes casos?
Os sinais de queimadura solar em bebés e crianças incluem:
- Pele vermelha, quente e sensível ao toque (mais evidente em bebés de fototipos claros);
- Alterações na coloração da pele, como escurecimento, brilho anormal ou tom acinzentado em bebés de pele negra, onde o eritema pode não ser visível;
- Desconforto generalizado, irritabilidade e choro frequente;
- Edema (inchaço) ou formação de bolhas, nos casos mais graves;
- Febre, letargia, vómitos ou sinais de desidratação, como choro sem lágrimas ou fontanela deprimida (moleirinha mais funda), são sinais de alarme.
Em bebés de pele clara (fototipos I a III), a vermelhidão é geralmente o primeiro sinal visível. Já em bebés de pele negra ou fototipos mais elevados (IV a VI), o eritema pode passar despercebido — o que exige maior atenção aos sinais subtis, como calor excessivo da pele, mudança de textura ou comportamento do bebé.
Nestes casos, o melhor conselho é sair do sol, hidratar a criança e recorrer de imediato a uma farmácia próxima ou ao centro de saúde. Nunca colocar extratos de plantas ou óleos essenciais diretamente na pele. É frequente o recurso ao aloé vera. É um erro. Em qualquer pele, mas principalmente numa pele lesada, o risco de aplicar estes ingredientes naturais e lesar ainda mais a pele é real e sério.
A exposição solar tem algum benefício para os mais pequenos?
Como qualquer ser humano, as crianças precisam de sol para sintetizar vitamina D. Contudo, que fique bem claro que não é por usarmos protetor solar que temos défice de vitamina D. A exposição breve de partes descobertas no dia a dia, como mãos e braços, é suficiente para a síntese adequada na maioria das pessoas. Portanto, tirando o facto de habitualmente a exposição solar estival estar associada a momentos de convívio saudável com familiares e amigos – e esse impacto mental ser salutar para todos – do ponto de vista da síntese da vitamina D (acredito ser este o objetivo da questão) não há necessidade de expor uma criança ao sol ou de deixar de aplicar protetor solar por temer défice desta vitamina. Acresce também que, segundo a Norma nº 004/2019 de 14/08/2019, a suplementação vitamínica D faz-se em idade pediátrica mesmo nas crianças saudáveis até aos 12 meses de vida, independentemente do seu tipo de alimentação.
Nunca colocar extratos de plantas ou óleos essenciais diretamente na pele. É frequente o recurso ao aloé vera. É um erro. Em qualquer pele, mas principalmente numa pele lesada, o risco de aplicar estes ingredientes naturais e lesar ainda mais a pele é real e sério.
Como equilibrar os riscos com os benefícios?
- Evitar a exposição direta ao sol em bebés com menos de 12 meses, sobretudo entre as 11h e as 17h;
- Aproveitar a luz solar indireta e difusa (por exemplo, à sombra ou em passeios curtos ao ar livre com proteção adequada) para estimular a produção de vitamina D de forma segura;
- Proteger com roupa, chapéus e óculos e, quando necessário, aplicar protetor solar adequado à idade nas áreas expostas;
- Em bebés com risco de deficiência de vitamina D, considerar a suplementação oral — de acordo com a recomendação do pediatra — em vez de recorrer à exposição solar deliberada;
- Adaptar a abordagem ao fototipo da criança, lembrando sempre que mesmo as peles negras, embora mais pigmentadas, não são imunes aos efeitos cumulativos do sol.
A exposição solar não deve ser a principal estratégia para obtenção de vitamina D na infância, especialmente nos primeiros anos de vida. O equilíbrio entre riscos e benefícios faz-se com exposição indireta, proteção adequada e suplementação quando indicada. A luz do sol pode ser benéfica, mas a fotoproteção é fundamental para preservar a saúde da pele a longo prazo.
Que conselhos daria aos pais que vão de férias com bebés e crianças pequenas durante o verão?
Privilegiar a sombra, sempre. Usar protetor com SPF 50+ e todas as outras medidas de fotoproteção. As queimaduras solares na infância aumentam muito o risco de melanoma em adulto. Num estudo de 2025 publicado no Journal of the American Academy of Dermatology concluiu-se que cada queimadura solar com bolhas antes dos 15 anos de idade esteve associada a um aumento de 3,2% no risco de melanoma.
Além do protetor solar, que outros cuidados devem os pais ter durante a exposição solar?
- Evitar a exposição solar direta.
- Evitar a permanência ao sol entre as 11h-17h, quando a radiação UV é mais intensa.
- Usar roupa escura e de malha apertada.
- Usar óculos de sol: modelos adaptados ao tamanho do rosto e com proteção certificada UV400.
- Contemplar o uso de roupa com UPF certificada (Ultraviolet Protection Factor), especialmente para bebés e crianças de pele clara.
- Usar chapéu com aba de pelo menos 7,5 cm à volta de toda a cabeça, para proteger o rosto, as orelhas e a nuca.
- Hidratar frequentemente.
- Evitar a ingestão de bebidas açucaradas.
- Garantir que toda a família sabe como proteger a pele e os olhos do sol porque as crianças aprendem melhor pelo exemplo.
Lembrar que o protetor solar SPF 50+ deve ser utilizado como uma medida adicional de proteção solar, e não como desculpa para permanecer mais tempo ao sol. O protetor solar pode ajudar a proteger a pele contra as queimaduras solares e certos tipos de cancros de pele, mas apenas quando é usado corretamente.
A exposição solar não deve ser a principal estratégia para obtenção de vitamina D na infância, especialmente nos primeiros anos de vida.
Que mitos importa desmistificar?
O tema da proteção solar está cheio de mitos que são altamente prejudiciais para a saúde do ser humano e das crianças em particular. E é um problema real porque se o protetor solar não for bem utilizado dá-nos uma falsa sensação de segurança quando na verdade estamos em risco. Portanto, seria importante que os profissionais de saúde e as marcas de cosmética, em geral, procurassem informação atualizada e robusta para podermos aumentar a literacia da população neste tema.
De uma forma geral, há a ideia que os cosméticos têm ingredientes muito perigosos que podem fazer mal e que são de evitar. Por vezes, parece que os pais dão mais facilmente um medicamento às suas crianças do que aplicam um creme na pele dos filhos, por medo. Esta ideia só se combate se percebermos que os cosméticos obedecem ao princípio da não maleficência, têm uma legislação muito exigente (por todo o mundo, mas principalmente na Europa), são regulados e que nenhuma marca credível quer colocar produtos pouco seguros no mercado.
Começa com o simples facto de vermos profissionais de saúde a propagar ideias erradas sobre o funcionamento dos filtros e sobre os malefícios de determinados ingredientes.
Partilho então aqueles que considero os piores mitos sobre este tema. Vou escrever a afirmação correta porque está provado que quando comunicamos o erro e só depois o esclarecemos, muitas pessoas não memorizam a informação correta e retêm o erro. Como se houvesse um reforço do que está mal. Pode, por isso, ser contraproducente. Para evitar isto recomendo que se comunique apenas a forma correta.
1| Tipos e funcionamento dos filtros UV.
Uma das afirmações mais comuns sobre filtros UV é a distinção entre “físicos” e “químicos”, sendo que os “físicos” se referem aos dois filtros minerais/inorgânicos que existem: o dióxido de titânio e o óxido de zinco. Esta distinção pode induzir em erro, já que tanto o dióxido de titânio como o óxido de zinco são, como todos os filtros UV, e toda a matéria do universo, substâncias químicas.
Contudo, pode fazer-se uma distinção correta entre filtros UV químicos orgânicos – que têm como base o carbono – e filtros UV químicos inorgânicos, que não são baseados em carbono (também chamados filtros minerais).
O principal mecanismo de proteção – seja o filtro orgânico ou inorgânico, solúvel ou insolúvel – é a absorção. Neste processo, o filtro absorve a radiação UV e liberta-a sob a forma de calor. A proteção solar é conseguida por absorção (cerca de 90%) e uma pequena percentagem é refletida ou dispersada (5-10%).
2| Aplicação e exposição.
Todos os protetores solares devem ser aplicados cerca de 5-10 minutos antes da exposição solar, sejam eles orgânicos ou inorgânicos.
3| Falsa noção de tempo associada ao SPF.
O fator de proteção solar (FPS ou SPF) corresponde à proteção contra a radiação UVB e é avaliado in vivo de forma padronizada. O FPS avalia a dose eritematosa mínima (MED) da radiação UVB, não o tempo. A associação com o tempo é um atalho comunicacional, útil, mas enganador, já que subestima fatores tão ou mais relevantes e que devem ser tidos em conta pelo indivíduo aquando da exposição solar.
A intensidade da radiação solar não é constante. FPS 30 significa que a dose mínima de radiação UVB necessária para causar eritema na pele com protetor é 30 vezes maior do que na pele sem protetor. A ideia de que FPS 30 significa poder ficar 30 vezes mais tempo ao sol é uma simplificação incorreta. Portanto, usar o FPS como multiplicador de tempo pode induzir em erro e promover uma falsa sensação de segurança. A radiação solar varia constantemente; depende da hora do dia, estação do ano, latitude, altitude, e refletividade da superfície (areia, neve, água, etc.).



