Setembro é, para quase todas, o mês do recomeço. Regressam os horários, os despertadores, os pequenos-almoços apressados. Em muitas casas, traz o cheiro a cadernos novos e a mochilas por estrear. Noutras, talvez na maioria, vivem-se os sintomas da Síndrome de Regresso ao Trabalho: a inquietação com os e-mails acumulados, a ansiedade perante a agenda já cheia de reuniões, a sensação de que as férias passaram num instante e não chegaram para nada. Vem depois a irritação com o trânsito, a frustração com os quilos que sobraram do verão, o cansaço logo ao segundo dia útil… e aquela vontade secreta de regressar à leveza, ao tempo lento e à energia boa dos meses de verão. Mas chegou setembro. O mês de balanços e reorganização, com dias mais curtos que impõem mudanças de ritmo.
Se a menopausa fosse um mês, seria setembro. Porquê? Anseia-se por março, que encerra o inverno e traz as cores e o calor do sol. Fala-se com brilho do trio junho-julho-agosto e das alegrias planeadas para as férias. Discutem-se os preparativos de dezembro, com festa, árvore e presentes, e fechamos o ano com as resoluções de renovação e as promessas de janeiro… mas setembro dificilmente é assunto de conversa. Não tem o entusiasmo das chegadas, nem a emoção do encerrar de capítulos. É um mês de travessia. Não deslumbra. E é talvez por isso que este mês se assemelha tanto à menopausa.
Esta fase chega com transformações, geralmente pouco claras à primeira, mas que sentimos nas pequenas coisas. É mudança. Assinala um fim que, na verdade, é só o início de qualquer coisa… e traz a exigência de uma nova logística. Pede-nos outros cuidados e reajustes. Convida-nos a olhar para dentro, às vezes pela primeira vez em muito tempo.
Mas não falamos de menopausa… o que nos deixa a todas às escuras e sem a noção do que esperar das alterações – a todas e a todos, porque, quer queiramos quer não, esta transição também impacta a vida deles.
A realidade é que a maioria das mulheres, hoje, por incrível que pareça, está sozinha e enredada numa imensa desinformação no que concerne à menopausa. Esta transição é ainda vivida de forma isolada e com inseguranças. Aliás, vejo todos os dias mulheres em diferentes fases da vida, mas é na menopausa que encontro mais desigualdades no acesso a informação de qualidade e também mais sofrimento desnecessário. No consultório, é frequente cruzar-me com a frustração, a perda de identidade, a dor física e a dor mental. Há uma sensação de declínio inevitável instalada que é urgente mudar.
Se falássemos mais, se escrevêssemos mais, se planeássemos a herança de conhecimento que queremos para as nossas filhas, amigas, colegas e, na verdade, para todas as mulheres, acabariam certamente os medos, os mitos e a falta de conhecimento que ainda condicionam esta fase.
O projeto Crónicas da Menopausa nasce, por isso, do propósito de falar do setembro das nossas vidas, abrindo espaço para conversas sérias, descomplicadas e informadas sobre a menopausa e tudo o que ela envolve – o corpo, as hormonas, o sono, o humor, o desejo, o envelhecimento, o medo. Se é algo que todas vamos vivenciar, então que se torne familiar muito antes de acontecer, para não sermos apanhadas de surpresa no meio do turbilhão da mudança.
A menopausa é, sim, um marco biológico. Pode ser o início da tua fase mais saudável e mais confiante. A diferença está em seres a mulher que sabe o que precisa de ser feito.
A menopausa não avisa. Mas nós podemos estar sempre prontas.
Denise Marques

Médica e fundadora da MERA Clinics, Denise Marques dedica-se à Medicina Funcional, Menopausa e Longevidade. Comprometida com a literacia em saúde, escreve, a partir de outubro, sobre os desafios da menopausa para os tornar mais compreensíveis, práticos e transformadores na Revista LuxWoman. É também anfitriã do podcast MENO Talks, um espaço vibrante, inspirador e sem tabus, onde ciência e experiência se encontram para tirar a pausa à menopausa