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Não é Carnaval todos os dias — mas quase

Hoje falo-lhe das máscaras que as mulheres aprendem a usar não por vaidade, mas por sobrevivência. Do cansaço de sustentar personagens, da armadura que protege e aprisiona, e do que acontece quando o corpo já não quer fingir. Sim, tirar a máscara pode ser o acto mais revolucionário do ano

Quase todos os dias as mulheres acordam, vestem-se e ajustam cuidadosamente uma máscara antes de sair ao mundo. Não uma máscara carnavalesca, dessas que brilham e assumem o artifício, mas máscaras discretas, funcionais, socialmente aplaudidas. Máscaras aprendidas desde cedo, aperfeiçoadas com o tempo, confundidas com a identidade. A socialização feminina continua a ser, em muitos contextos, um treino sofisticado de performance emocional: aprende-se a sorrir quando se está cansada, a ser forte quando se precisava apenas parar.

Há a máscara da boa menina, essa figura treinada para não incomodar, não pedir demais, não ocupar demasiado espaço. Há a máscara da mulher forte, que resolve, sustenta, aguenta — e que raramente se permite cair, porque alguém sempre depende dela. E há ainda a máscara da mulher competente, produtiva, organizada, emocionalmente funcional, aquela que “dá conta” de tudo e cuja exaustão raramente é levada a sério porque vem bem maquilhada. O curioso é que estas máscaras não só são toleradas como são premiadas. Tornam-se virtude. Tornam-se carácter. Tornam-se, com o tempo, prisão.

O Carnaval aparece então como essa estranha excepção simbólica: o único momento do ano em que a máscara é autorizada, desejada, celebrada. Um intervalo socialmente legitimado para exagerar, para ser outra coisa, para brincar com identidades. Mas talvez o mais irónico seja isto: passamos o ano inteiro mascaradas e fingimos que só no Carnaval usamos máscaras. O resto do tempo chamamos-lhe maturidade, profissionalismo, controlo emocional. E raramente nos perguntamos — com honestidade suficiente para nos inquietar — quem seríamos se deixássemos cair a máscara fora da festa.

Convém fazer um esclarecimento importante, sobretudo num tempo que confunde autenticidade com exposição permanente: máscara não é sinónimo de falsidade. Psicologicamente, a máscara é muitas vezes estratégia. É adaptação. É recurso. É uma forma legítima de protecção psíquica num mundo que nem sempre é seguro para a vulnerabilidade feminina. Nem tudo o que se cala é mentira; muitas vezes é sobrevivência. O problema não está na existência da máscara, mas na impossibilidade de a retirar. Quando deixa de ser escolha e passa a ser exigência. Quando já não protege, apenas consome. Quando o rosto por baixo começa a adoecer enquanto a personagem continua impecável.

E depois há o corpo. O corpo feminino, esse território historicamente regulado, comentado, apropriado. No Carnaval, o corpo entra em festa — mas nem sempre entra em casa. Mostra-se mais, bebe-se mais, dança-se mais, exagera-se mais. E ainda assim, vale a pena perguntar: estamos a celebrar o corpo ou a fugir dele? Porque o excesso nem sempre é liberdade; muitas vezes é anestesia. O ruído serve frequentemente para calar qualquer coisa que insiste em ser sentida. E o corpo, quando não é habitado com escuta, acaba usado como palco de descarga.

O Carnaval, nesse sentido, é uma metáfora perfeita da mulher-performance. Da exaustão de sustentar versões de si. Do cansaço profundo de nunca poder baixar o papel. Há um momento — inevitável — em que a personagem falha. Em que a energia não chega. Em que a máscara pesa mais do que protege. E é aí que surge a pergunta mais difícil, porque não admite resposta ensaiada: quem és tu quando ninguém está a ver? Quem és tu quando não estás a ser útil, desejável, competente ou forte?

Há mulheres que não usam máscara. Usam armadura. Uma armadura construída à base de hiperresponsabilidade, controlo, autonomia levada ao limite. Muitas vezes é trauma bem gerido — ou assim parece. A armadura protege, sem dúvida. Mas também pesa. E quase nunca permite dançar. Para essas mulheres, o Carnaval não é libertação: é ameaça. Porque baixar a guarda, mesmo por uma noite, pode parecer perigoso demais. Há quem nunca tenha tido o luxo de se despir simbolicamente.

Talvez, então, o verdadeiro desafio não seja tirar a máscara no Carnaval. Talvez seja possível perceber por que razão ela continua a ser tão necessária no resto do ano. Talvez a pergunta não seja “quem quero ser na festa?”, mas “quem estou autorizada a ser na vida?”. E talvez a revolução feminina mais profunda não esteja em mais fantasias, mais excessos ou mais personagens — mas em menos. Menos performance. Menos “heroísmo” obrigatório. Menos máscaras confundidas com identidade.

Porque no fim, o que muitas mulheres desejam não é mais Carnaval. É mais verdade. Mesmo que isso dê menos aplausos.


Sara Ferreira

Email: apsicologasara@gmail.com

Site: www.apsicologasara.com

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