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Não precisamos provar nada – a não ser roupas, sapatos e vinhos

A rotina cobra, o corpo grita, mas ninguém ouve. Hoje falamos sobre o esgotamento feminino normalizado — e os sinais que insistimos em ignorar. E se a única medalha que recebemos for uma anemia?

Durante anos, vivi com a estranha sensação de que estava constantemente em dívida com o mundo. Como se o simples facto de eu respirar, existir, ocupar espaço – especialmente enquanto mulher – viesse com um anexo invisível: “só podes ficar se fores útil”. Não útil de forma leve, ocasional ou espontânea. Não. Útil até ao osso. Útil até à exaustão. Útil ao ponto de esquecer quem sou.

Crescemos treinadas para agradar antes de falar, para sorrir antes de pensar, para ajudar antes de sentir. Passamos uma vida inteira a tentar provar que somos boas filhas, boas mães, boas profissionais, boas amantes, boas amigas, boas colegas, boas pessoas. Só que ninguém nos diz que esse jogo tem regras viciadas e um tabuleiro que muda sempre que nos aproximamos da linha de chegada.

E no meio de tanta exigência, esquecemo-nos de uma coisa simples: que o nosso valor não é uma meta – é uma verdade intrínseca.

Só que isso, claro, ninguém nos ensinou. Em vez disso, deram-nos listas. Infinitas listas. Para sermos dignas de descanso, de amor, de admiração, de afecto. E em letras minúsculas, lá no fim da lista, escondia-se uma cláusula cruel: Se falhares um ponto, recomeça do zero. Obrigada.

Mas quem escreveu estas regras? Quem decretou que a nossa dignidade está indexada ao grau de sacrifício? Quando foi que aceitámos trocar os nossos ritmos internos por calendários alheios, os nossos desejos por expectativas sociais, o nosso corpo por produtividade?

Quando foi que nos convencemos de que só podemos descansar quando tudo estiver feito, limpo, resolvido, terminado? (Spoiler: esse dia não existe, e nem nunca existirá.)

“Descansa depois.” “Primeiro acaba isso.” “Não sejas fraca.” “Há quem esteja pior.”

Estas frases são o som ambiente da nossa infância, adolescência, vida adulta. Pequenos chicotes invisíveis que nos fazem andar mais depressa, sorrir mais falso, dizer “sim” quando o corpo grita “não”. E, curiosamente, o prémio final nunca chega. Porque o descanso nunca é merecido. Porque o amor, se tiver de ser conquistado, nunca é realmente nosso.

Pergunte-se: Quem a ensinou que precisava ser útil para ser amada? De onde veio essa ideia de que o descanso é algo a merecer, e não um direito humano, fisiológico, básico, ao nível da água e do sono?

Pense comigo:

  • Quem é você quando não está a cumprir uma função?
  • O que sente quando diz “não posso” sem precisar justificar?
  • Consegue parar sem sentir culpa?
  • O descanso é para si um direito ou um luxo proibido?

Há mulheres que sabem responder. Mas a maioria de nós ainda confunde descanso com preguiça, prazer com futilidade, cansaço com fracasso. E é precisamente aqui que a psicologia se cruza com a poesia. Porque há algo profundamente poético em começar a dizer “sim” a nós próprias – mesmo que o mundo diga que não é hora (alguma vez será?).

E se o descanso não for apenas uma pausa entre obrigações, mas um manifesto silencioso?

Um gesto político. Um ritual de cura. Uma declaração de independência emocional. Sim, descansar é subversivo. Porque num mundo que lucra com o nosso cansaço, parar é um acto de pura rebeldia.

Cada vez que escolhemos comer com presença em vez de engolir à pressa entre e-mails, estamos a dizer ao nosso sistema nervoso: “Estás segura.” Cada vez que recusamos aquele pedido “só mais um favorzinho” quando já não temos espaço, estamos a proteger a nossa integridade. Cada vez que nos permitimos chorar, rir alto, dormir mais, dançar sem motivo ou simplesmente não fazer nada… estamos a educar as próximas gerações para algo radical: a dignidade da pausa.

A verdade é que nos tornámos especialistas em fazer malabarismo com mil coisas ao mesmo tempo, mas esquecemos a mais básica: estar bem. Tornámo-nos atletas olímpicas do “está tudo bem”, mesmo quando por dentro tudo está em ruínas. Saltamos refeições, adiamos idas à casa de banho, abdicamos do corpo em nome da agenda. E no fim do dia, a única medalha que ganhamos é a exaustão crónica. E, para as mais dedicadas, uma anemia de brinde!

Sim, há culpa. Há desconforto. Há vozes internas que ainda ecoam frases antigas: “És preguiçosa.” “Não fizeste o suficiente.” Mas também há escolha. Há reprogramação. Há caminho. E há terapia – esse lugar seguro onde podemos desmontar, camada por camada, as vozes que não são nossas.

E se eu lhe dissesse que não tem de provar nada? Nem a sua competência, nem a sua força, nem a sua capacidade de aguentar tudo calada e com classe. A única coisa que precisa provar é aquele vinho tinto encorpado, boca redonda, aveludado e com final robusto da prateleira de baixo, uns stilettos que a façam sentir como se pisasse o mundo com o dobro da altura, e aquele vestido que grita “sou deliciosa”, mesmo que o mundo prefira que sejas “discreta”, aquele prazer esquecido.

Tenho vindo a perceber que descansar é mesmo um acto de rebeldia. Num sistema que nos quer cansadas, dóceis e produtivas, dizer “hoje não” é revolucionário. Almoçar sem pressa é quase subversivo. Dizer “não estou disponível” é um manifesto. E ouvir o corpo antes do calendário é poesia política.

O relaxamento é libertação. E se começássemos a escrever os nossos próprios bilhetes de autorização?  “Dou-me permissão para descansar antes de terminar a lista de tarefas.” “Dou-me permissão para dizer não, sem me justificar.” “Dou-me permissão para sentir prazer sem culpa.” “Dou-me permissão para existir, inteira, imperfeita, presente.”

Escrever estes pequenos lembretes diários é como reprogramar o sistema operativo do nosso corpo e da nossa mente. É dizer ao nosso sistema nervoso: “estás segura, não precisas correr para merecer existir.” É fazer um belo de um ‘reparenting’ emocional, psicológico, e até espiritual. E sim, há um lugar muito poderoso onde esse processo pode ser cultivado: no espaço psicoterapêutico.

Na psicoterapia, aprendemos a dar nomes ao que sentimos. A olhar de frente para o vazio que tentamos preencher com listas. A reconstruir o sentido do amor, do descanso, da auto-estima. Aprendemos que não temos de merecer o amor, apenas aceitá-lo. Que o valor não se conquista, reconhece-se. E que o descanso não se agenda no futuro – começa hoje.

Na psicoterapia, não vamos para aprender a ser “melhores” ou mais “eficientes”. Vamos, em muitos casos, para desaprender. Para arrancar, com cuidado e coragem, as camadas de silenciamento, auto-exigência, vergonha e medo. Vamos para descobrir o que existe para lá da nossa função. Quem somos quando ninguém está a aplaudir ou a reprovar. Quando não há metas. Quando não há luta.

E sabe o que há? Há descanso. Há prazer. Há verdade. Há corpo. Há alma. Há silêncio sem culpa. Há presença. Há vida.

Portanto, não, minha querida. Você não tem de provar nada. Você já é. Já está. Já foi. E será. E isso basta.

E se quiser começar hoje – aqui mesmo, entre uma leitura e o próximo suspiro – deixo-lhe algumas práticas simples, mas poderosas, para começar a desconstruir esse eterno “tenho de provar…” que a habita:

  • Escreva bilhetes de permissão. Todos os dias, um. Não precisam ser bonitos, só precisam de ser verdadeiros. “Dou-me permissão para descansar.” “Dou-me permissão para sentir raiva.” “Dou-me permissão para não saber.” Com o tempo, estas frases tornam-se vozes internas de amor, não de cobrança.
  • Observe a culpa sem obedecer a ela. Quando sentir culpa por parar, pergunte-se: “O que está a tentar proteger em mim?” Muitas vezes, a culpa é apenas uma armadura emocional herdada, não um sinal de que fizemos algo errado.
  • Crie um ritual de descanso. Pode ser uma chávena de chá bebida devagar, um banho quente sem interrupções, cinco minutos de respiração consciente, ou uma caminhada sem destino. O importante não é o que faz, é que o faça por si, consigo, para si.
  • Leve estas reflexões para a terapia. A psicoterapia é um lugar onde se aprende a escutar o corpo, questionar crenças herdadas, curar feridas silenciosas e reescrever a história que nos contamos. Não para nos tornarmos “melhores”. Mas para, finalmente, nos permitirmos ser.

No fundo, trata-se de nos relembrarmos do mais básico: não somos um projecto para ser optimizado. Somos um milagre para ser sentido.

E às vezes, o primeiro passo para isso é simplesmente sentar, respirar fundo…

…e escolher não fazer mais nada.

Com um copo de vinho na mão. Uns sapatos ridiculamente bonitos nos pés. E a alma, finalmente, descalça.

Agora vá lá, e prove esse vinho. Porque sim, não precisamos provar nada. A não ser roupas, sapatos e vinhos. De preferência descalças, em casa, bustos ao léu, com rímel borrado e o coração em paz.


Sara Ferreira

Email: apsicologasara@gmail.com

Site: www.apsicologasara.com

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