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O seu corpo já sabe, mas o problema é que o parou de ouvir

Dia corrido, agenda cheia, sem tempo para parar. E de repente — do nada — aquela sensação no peito. Um aperto. Um desconforto que passa tão rápido quanto veio. E antes mesmo de processar, o pensamento já apareceu: “Acho que é ansiedade.”

Há anos acompanho mulheres que travam uma guerra silenciosa com o próprio sistema nervoso. E uma das primeiras coisas que aprendo a dizer — e elas demoram um pouco a acreditar — é: a ansiedade não é o problema, e sim um mensageiro.

O problema é que estamos tão acostumadas a silenciar esses mensageiros que já nem sabemos mais o que eles vieram dizer.

A cultura do bem-estar  vendeu-nos uma ideia bonita, mas incompleta sobre o mindfulness. Meditação como estado zen permanente. Respiração como botão de reset. Presença como ausência de desconforto.

Acontece que a presença real — aquela que transforma — é precisamente o oposto. É ter a coragem de estar com o que é, antes de tentar mudar o que é.

Quando o coração acelera antes de uma reunião importante, quando a garganta aperta antes de uma conversa difícil, quando aquela inquietação estranha aparece num domingo à tarde sem motivo aparente — o corpo não está a falhar, mas está a falar.

A neurociência já demonstrou que o sistema nervoso processa informações muito antes de a mente consciente as organizar em palavras. O que sentimos no corpo é, muitas vezes, sabedoria antecipada, não é ruído mas um dado importante.

O mindfulness que me interessa — e que pratico e ensino — não é o que nos faz sentir menos, mas aquele que nos ajuda a perceber mais.

Há uma distinção fundamental entre suprimir e regular. Suprimir é empurrar a sensação para baixo e continuar a correr. Regular é parar, respirar, e perguntar: o que é que este aperto no peito está a tentar proteger? Uma pergunta simples, mas que a maioria de nós nunca aprendeu a fazer.

Crescemos numa cultura que recompensou a mulher que aguenta, que continua, que “não faz drama”. E internalizamos isso com uma eficiência impressionante. Ficámos tão boas a funcionar a despeito do corpo que nos esquecemos que o corpo faz parte de nós.

Lembro-me de uma cliente — vou chamá-la de Yasmin — que veio ter comigo a dizer que queria “aprender a meditar” porque a ansiedade estava a destruir a sua produtividade. Palavras dela.

Nas primeiras semanas, cada vez que a guiava para uma prática de atenção plena, ela entrava em loop. Mente acelerada. Frustração. “Estou a fazer mal.” Não estava. Estava, pela primeira vez em anos, a ouvir quanto barulho havia lá dentro e isso assustou-a muito, porque o silêncio revelou o que o movimento escondia.

Três meses depois, Yasmin não tinha menos pensamentos. Tinha mais clareza sobre quais deles mereciam a sua atenção. Sabia distinguir a ansiedade de execução — aquela que faz parte do desempenho — da ansiedade de exaustão — aquela que pede paragem e essa distinção mudou tudo.

A respiração não é um truque. É a única função do sistema nervoso autónomo que podemos controlar conscientemente. Quando expiramos mais lentamente do que inspiramos, ativamos o sistema parassimpático — o modo “seguro” mas não como e sim como aterramento.

Uma expiração longa não elimina o problema. Cria condições para que a mente possa pensá-lo em vez de reagir. Essa é a diferença entre conduzir em pânico e conduzir com foco.

Todas nós podemos passar por crises de ansiedade e a questão não é ficar imune a isso, mas aprender a lidar com essa mensagem. Parar e perguntar o que o corpo quer dizer, agradecer ao alerta e depois decidir conscientemente o que fazer com essa informação. Parar de fugir de si mesma e olhar para dentro.

Isso pode parecer estranho, mas acredite, essa é uma forma muito importante e transformadora de acessar o seu poder pessoal. O seu sistema nervoso não está contra si. Está, de uma forma imperfeita e por vezes ruidosa, a tentar cuidar de si.

Talvez a maior prática de mindfulness não seja esvaziar a mente. Seja aprender a confiar no corpo que sempre tentou dizer-lhe algo importante — mesmo quando estava ocupada demais para ouvir.


Carolina Padilha 

Comunicadora de bem-estar, consciência e performance humana

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Instagram: @eusou.carolinapadilha 

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