Trocou o curso de Gestão pelo ensino e vive a profissão, diariamente, com a mesma paixão, desde o primeiro dia. Apesar dos obstáculos, acredita que pode sempre fazer mais e melhor. Professora do primeiro ciclo há 28 anos, lança, agora, o livro de estreia, ‘Memórias Felizes e Inquietações de uma Professora’. Com ela, fomos saber: afinal, como é ser professor em Portugal?
Trocou a gestão pelo ensino e vive a profissão como uma verdadeira missão. Há três anos a ensinar ao primeiro ciclo no ensino privado, decidiu sair da sua zona de conforto e abraçar o desafio de ensinar numa escola pública, uma mudança que a transformou profundamente. O bullying contra professores, o excesso de medicalização das crianças, o uso descontrolado de telemóveis na escola são temas que abordou connosco na primeira pessoa, com coragem e sem filtros.
Como caracteriza a condição de professor, atualmente, no nosso país?
É do conhecimento geral, o mal-estar instalado na classe docente. Há um cansaço generalizado, os professores sentem que a profissão não é socialmente reconhecida. É uma classe envelhecida, onde a principal função de ensinar se perde na burocracia, na indisciplina crescente nas salas de aula, nos muitos projetos que invadem as escolas e na dificuldade em impor regras e limites, porque se instalou a ideia de que as nossas crianças não podem ouvir um “não” e tudo tem de ser negociado.
É difícil ensinar? Porquê?
Quando comecei a trabalhar, não senti dificuldade nenhuma. Estava feliz, muito motivada e tudo fluía. Tive algumas inseguranças, que foram sendo ultrapassadas quando comecei a perceber que os meus alunos estavam a aprender. Sentia o apoio das famílias e sentia-me respeitada, enquanto professora. No contexto atual é diferente. Posso afirmar que é difícil ensinar. Porque os alunos estão mais dispersos. Porque a informação muda à velocidade do vento. Porque os horários escolares não são adaptados às reais necessidades das nossas crianças. Porque os currículos são, muitas vezes, desinteressantes e estão sempre a mudar. Porque os programas são desadequados às idades. E, aqui, falo do 1.º ciclo, que é a minha área de ensino. Porque as turmas estão cheias de alunos com múltiplas questões associadas, desde problemas de aprendizagem à barreira da língua. Temos turmas com alunos de várias nacionalidades, que não falam por tuguês e, apesar de todos os esforços e boas vontades que nos caracterizam, não há recursos humanos para acautelar que tudo funciona como deveria. Não basta fazer leis. Não basta sinalizar ou referenciar alunos. Não é só por aí que conseguimos resolver os problemas. Temos de ser intolerantes face à ausência de respostas. Há, nas nossas escolas, crianças em condições de grande vulnerabilidade que não têm os apoios necessários. E, depois, não podemos ignorar que há alunos que não querem aprender e sabem que podem não se esforçar. Não são responsabilizados pelas…
