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Sair de uma relação pode depender do saldo bancário

A propósito do Dia Internacional da Mulher (8 de março), em que mais do que celebrar conquistas devemos refletir sobre as vulnerabilidades estruturais que ainda persistem, Daniel Rocha partilha cinco passos para construir independência financeira.

No Dia Internacional da Mulher, multiplicam-se homenagens, flores e mensagens de inspiração. Fala-se de igualdade, de conquistas sociais e de representação, mas há uma dimensão menos visível (e ainda pouco discutida) que continua a determinar o grau real de liberdade de milhares de mulheres, principalmente em Portugal: a independência financeira.

A história é silenciosa e repete-se em diferentes contextos sociais. Uma mulher com emprego, vida organizada e família constituída. A relação já não funciona e o vínculo emocional esgotou-se. Não há escândalo público nem violência física, mas existe um bloqueio invisível: a impossibilidade económica de sair. Sem poupança acumulada, sem ativos próprios, sem margem financeira para arrendar uma casa, quanto mais para comprar, acaba por ficar numa relação que já não a preenche. A decisão de permanecer não é emocional. É financeira.

Daniel Rocha, especialista em Investimentos, Economia e Geopolítica, defende que uma das formas mais discretas de vulnerabilidade da mulher moderna é a dependência económica: “A ausência de autonomia financeira limita escolhas e, quando não existe escolha, a liberdade torna-se teórica.”

Daniel Rocha, especialista em Investimentos, Economia e Geopolítica

Um problema estrutural, não individual

Os dados ajudam a enquadrar o fenómeno. Em média, as mulheres vivem mais anos do que os homens, tendem a ter interrupções de carreira mais frequentes, assumem maioritariamente responsabilidades familiares e, em muitos casos, apresentam menores níveis de património investido ao longo da vida.

A combinação destes fatores cria uma fragilidade estrutural:

  • Maior longevidade
  • Menor acumulação de capital
  • Maior probabilidade de dependência financeira em momentos críticos

O especialista sublinha que não se trata de uma questão ideológica: “Trata-se de matemática financeira aplicada ao ciclo de vida. Quem vive mais tempo e acumula menos ativos enfrenta um risco acrescido de vulnerabilidade futura, e esse risco não se resolve com boas intenções. Resolve-se com planeamento e investimento consistente ao longo do tempo.”

Investir como instrumento de autonomia

O conceito de investimento é frequentemente associado a rentabilidade, mercados ou especulação. No entanto, Daniel afirma que a sua função mais importante pode ser outra: criar margem. Margem para recomeçar uma vida, tomar decisões difíceis, sair de um contexto que já não é saudável ou mudar de cidade ou país.

“Investir não é apenas procurar retorno financeiro. É construir independência progressiva. Num país onde a literacia financeira ainda é limitada e onde muitas decisões económicas continuam a ser delegadas no parceiro, a ausência de participação ativa nas finanças pessoais pode traduzir-se, anos mais tarde, numa limitação real de escolhas”, reforça.

Cinco passos para construir a sua independência financeira

Para além da reflexão, existem medidas práticas que podem ser implementadas de forma gradual e responsável:

  1. Criar uma conta individual própria: Independentemente da existência de contas conjuntas, manter uma estrutura financeira autónoma é essencial.
  2. Constituir um fundo de emergência: Idealmente equivalente a seis meses de despesas fixas. Este fundo não é para investir, é para garantir segurança imediata.
  3. Começar a investir de forma regular: Mesmo com montantes reduzidos, a consistência ao longo do tempo é mais relevante do que o valor inicial.
  4. Desenvolver literacia financeira básica: Compreender conceitos como inflação, diversificação, risco e juros compostos permite tomar decisões mais informadas e menos dependentes.
  5. Participar ativamente nas decisões financeiras do agregado: Não delegar totalmente a gestão do património é um passo essencial para evitar assimetrias futuras.

Segundo o especialista, a independência financeira não se constrói num mês nem num ano. “Constrói-se com disciplina, informação e tempo. O objetivo não é acumular riqueza de forma acelerada, mas criar estabilidade suficiente para que qualquer decisão seja uma escolha e não uma imposição económica.”

Celebrar conquistas nesta data é importante, mas refletir sobre vulnerabilidades estruturais é mais urgente. Neste Dia da Mulher, Daniel Rocha afirma que fazer esta pergunta pode ser desconfortável, mas é essencial: “Se amanhã fosse necessário recomeçar do zero, teria independência financeira suficiente para o fazer?”

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