Envolta em símbolos “maiores de 18 anos” e em sorrisos constrangidos, a literatura erótica continua a ser alvo de tabu. Susana Oliveira é autora. ‘O Melhor Erro que Poderia Cometer’ é a sua mais recente obra. Com ela, falámos do desejo com consciência e da liberdade emocional.
Como surgiu a literatura erótica na sua vida?
Curiosamente, sempre achei que não gostava de ler. Os clássicos obrigatórios na escola nunca me cativaram e cresci a acreditar que os livros não eram para mim. Tudo mudou, quando uma das minhas irmãs me ofereceu alguns livros da saga ‘Desejo’, que, ainda hoje, é publicada. Na altura, pensei que seriam apenas romances fofos e melodramáticos, mas quando comecei a lê-los percebi que estava enganada. Eram histórias intensas, cheias de emoção e desejo, que me prendiam, de tal forma, que não conseguia largá-las. Pela primeira vez, senti aquela curiosidade irresistível de virar página após página. Foi nesse momento que percebi que a literatura tismo fosse sinónimo de ser uma mulher leviana, sem moral, quase indigna. Muitos, acreditavam que eu estava a contar as minhas próprias experiências, em vez de criar ficção. Também senti o peso de ser mãe, como se escrever este género fosse incompatível com a imagem de uma “boa senhora, mãe ou esposa”. Existe uma tendência em reduzir a literatura erótica a algo menor, quase descartável, quando, na verdade, é profundamente reveladora da condição humana. O maior obstáculo não foi apenas escrever, mas ter a coragem de assumir: sim, escrevo erotismo, e isso não me torna menos mãe, menos mulher ou menos digna.
As mulheres ainda têm vergonha em assumir que leem este tipo de livros? Porquê?
Infelizmente, sim. O prazer feminino foi, durante séculos, silenciado e visto como algo vergonhoso, e essa herança cultural continua presente. Muitas mulheres escondem que leem livros eróticos, porque admitir que se interessam por literatura erótica é, para muitos, admitir que têm desejo, e isso ainda assusta a sociedade. Mas há, também, outro fator importante: as próprias capas. Muitas vezes, uma capa demasiado explícita denuncia logo o género e faz com que as leitoras tenham vergonha de segurar o livro em público. O conteúdo já é tabu, mas quando a capa o grita, o preconceito e o constrangimento tornam-se ainda maiores.
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