Donos de sucessos como “Pôr do Sol” e “Pobre Ex-Namorado”, David Mendonça, Francisco Cartaxo, Miguel Brites e Tomás Cartaxo têm conquistado o público português ao longo do último ano. O grupo formou-se na Universidade de Évora e, algum tempo depois, deu início a uma jornada que tem documentado nas redes sociais: o percurso de começar uma banda do zero até chegar aos Coliseus. O que começou de forma descomprometida depressa se transformou num caso sério quando lançaram “Pôr do Sol”, em março. No dia 8 de maio, apresentaram ao mundo o álbum de estreia, “Só Se Estraga Uma Casa”. Em novembro, dias 21 e 28, atuam nos tão sonhados Coliseus de Lisboa e Porto. Na esplanada Linha de Água, em Lisboa, estiveram à conversa com a LuxWoman sobre este primeiro disco, refletindo sobre o percurso que os trouxe até aqui, os desafios de transformar uma ideia num projeto sólido e a expectativa em torno de um álbum que consolida o lugar da banda no panorama musical português.
Francisco Cartaxo, Miguel Brites, Tomás Cartaxo e David Mendonça ( da esquerda para a direita), os Vizinhos, em entrevista
Como é que tudo começou? Como é que vocês se juntaram?
Francisco: Tudo começou no Grupo Académico Seistetos, da Universidade de Évora. Eu e o Tomás somos irmãos, o Miguel foi da minha turma desde o décimo ano, conheço-o há 10 anos. E, depois, o David juntou-se quando fomos estudar para a Universidade de Évora. Quando entrámos no grupo, começámos a conviver, a tocar as nossas guitarradas à mesa, a escrever canções e a divertir-nos. E notámos que tínhamos uma ligação. E, entretanto, assumimos a direção do grupo. Foi aí que fizemos o projeto com os Átoa e a Ritinha, os “Romance de Balcão”, onde estivemos envolvidos diretamente. No verão, passámos a pasta ao pessoal mais novo e, visto que não estávamos a fazer nada, pensámos: por que não criar uma banda?! Depois, no dia 1 de setembro, escrevemos “Pôr do Sol”, num jantar, com o João Direitinho, dos Átoa, que é o nosso manager. Foi ele que, nessa noite, nos deu o nome Vizinhos. Entretanto, neste intervalo de tempo, de setembro até dezembro, lançámos o primeiro vídeo e decidimos começar a fazer os vídeos de “Dia X a começar uma banda do zero”, com o objetivo de chegar ao Coliseu. Depois, no dia 21 de março, saiu “Pôr do Sol”.
Antes disso, queriam fazer música profissionalmente?
Tomás: O David estava a estudar música, portanto seria o único que, se calhar, iria mesmo vingar na área. Além disso, ele já tocava com outro artista. Eu também estava a fazer a parte técnica de uma banda, mas depois, com o surgimento dos Vizinhos, largámos tudo para nos focarmos a 100% no projeto. Mas não, acho que não estávamos à espera. Quando decidimos criar os Vizinhos, foi muito por brincadeira, até de repente virar a nossa vida ao contrário. Costumamos dizer que foi como um tsunami e tivemos de assumir que isto é o nosso trabalho, a nossa vida. Neste momento, é como se fosse um filho que estamos a criar.
Este primeiro álbum chega depois de vários sucessos virais. Sentiram pressão para corresponder às expectativas?
David: Claro que sim. Sem dúvida que este álbum teve muita discussão e demorou tanto tempo a sair cá para fora também por causa disso. Porque, a partir do momento em que tu fazes uma música que é a música do ano, que tem quase 30 e tal milhões e que as pessoas ouviram mais durante o ano, e, depois, queres fazer um álbum ao mesmo nível que essas músicas, é preciso ir com calma, é preciso escolher os instrumentos certos, os produtores certos e as músicas certas. Este álbum foi difícil de fazer e de terminar.
Porquê?
David: Como é o primeiro álbum, temos muitas dúvidas em relação a se as pessoas vão gostar, se mantemos o mesmo registo, se fazemos uma coisa diferente. Mas acho que conseguimos.
Estão orgulhosos?
David: Acho que sim, acho que este filho é aquele que tem 20 valores a tudo na escola [risos]. Acho que o álbum tem sonoridades muito parecidas, mas, ao mesmo tempo, diferentes, porque mistura três géneros musicais. O pagode brasileiro está presente e faz parte do nosso percurso desde “Próxima Vida”, a música brasileira que fizemos com os Atitude 67 e com os Átoa. Depois, temos “Laranjeiras”, que é uma balada e que sai do registo dos Vizinhos. Ao início, não era suposto ser, mas depois pensámos: por que não? Quisemos adquirir um bocadinho de maturidade neste álbum e lançar uma última faixa que deixasse as pessoas com curiosidade para o que vem a seguir, que será ainda melhor.
Sentem que vão responder às expectativas de quem gosta das vossas músicas, mas, ao mesmo tempo, atrair novos públicos?
David: Acho que já atingimos vários públicos. Nos nossos concertos, reparamos que há muitas gerações, desde avós e netos a pais e filhos. A nossa música chegou a todo o público. Mas, claro, temos sempre dúvidas, porque são músicas novas e um bocadinho diferentes. Porém, achamos que o álbum foi feito para todas as idades. Acho que, desde “Vizinha do Primeiro Andar”, que é uma música para mais novos e para as crianças cantarem, até “Laranjeiras”, para as pessoas mais velhas, passando por “Pôr do Sol” e “Pobre Ex-Namorado”, temos um equilíbrio. Sentimos que “Onde é que eu tinha a cabeça?” é o culminar dos dois públicos; quisemos experimentar um registo diferente e sabíamos que falar de álcool nas músicas e falar de copos e de noitadas é complicado e difícil de chegar a um público mais velho, mas tentámos dar um toque humorístico à música e esperamos conseguir chegar a todos. Os mais novos estão a gostar do nosso percurso, recebemos todos os dias muitas mensagens e, quando nos veem, querem tirar fotos connosco.
Capa do disco de estreia “Só Se Estraga uma Casa”
Porquê o nome “Só Se Estraga Uma Casa” para o vosso álbum de estreia e qual foi a inspiração para o mesmo?
David: E por que não dar o nome de “Só Se Estraga Uma Casa”? Toda a gente conhece esta expressão. É um caos bonito, é a mistura que nós sentimos que, quando nos juntamos os quatro, acontece, que só se estraga mesmo uma casa. A inspiração do álbum vem de nós os quatro, que quando nos juntamos dá sempre certo e até hoje deu sempre. E, desde o Grupo Académico, tudo o que nós fizemos até hoje resultou porque estávamos juntos. Acho que tudo o que nós fizemos foi bem feito e acho que tentámos sempre dar o nosso melhor. E o álbum é isso: é tudo o que nós semeámos ao longo deste ano e representa estes anos todos de amizade que nós também já temos.
Quais são as vossas músicas favoritas?
David: “Laranjeiras”. É a última faixa do disco e foi a última música a ser escrita. Conta a história de quando eu fui pai. Fechámos essa música quando eu estava no hospital. Chorei muito na altura, quando ouvi a música; estava num momento sensível e muito especial da minha vida. O João Direitinho ainda nos questionou se queríamos mesmo avançar com uma balada no nosso disco e eu pensei em testar uma coisa, sem qualquer expectativa. Mostrei a música ao meu filho, acabado de nascer, e ele reagiu à música. Depois disso, disse-lhes que íamos avançar. Faltava-nos mesmo esta faixa e acho que foi um tiro certeiro.
Francisco: “Onde é que eu tinha a cabeça?” é uma das minhas preferidas porque envolve dois géneros de música que todos adoramos e que fazem parte das nossas raízes e das nossas influências, que são o samba e o pagode. É especial. Conta uma história verdadeira de um colega da banda e foi das músicas que mais me deu gosto em fazer. A história aconteceu no dia e, à tarde, estávamos a escrever a canção sobre o que se passou.
Miguel: “Onde é que eu tinha a cabeça?”
Tomás: Para ser diferente, gosto muito de “Pessoa Certa na Altura Errada”, porque acho que vai resultar muito bem nos concertos. Tem uma energia muito para cima. E há ali qualquer coisa naquela canção que sinto que as pessoas vão aderir. Vamos conseguir fazer a festa, ainda mais.
Se pudessem escolher uma música para resumir a banda, para a apresentar, sem ser a “Pôr do Sol” qual seria?
Francisco: Para mim é “Onde é que eu tinha a cabeça”. Retrata tudo: a sonoridade, as histórias que representam as nossas vivências e a nossa maneira de estar na vida.
David: Eu estava a pensar noutra música. “Daqui Ninguém Me Tira” é muito especial porque fala sobre as nossas origens e sobre a nossa terra, o Alentejo, e do facto de nós não querermos sair de lá. Essa música retrata muito o que são os Vizinhos. Nós nunca precisámos de sair de Évora para fazer nada, nunca tivemos de ir para outra cidade para tentar a nossa sorte. Nós queremos é que as pessoas venham para o Alentejo.

Vocês compõem em conjunto?
David: Sim, sempre com a Aurora Pinto e com o João Direitinho. Nós fechamo-nos dentro do estúdio e criamos todos juntos. Como tocamos instrumentos diferentes, acaba por ser mais fácil juntarmo-nos e criarmos com os nossos instrumentos.
Como é que funciona o processo criativo?
Miguel: Normalmente temos uma ideia base, que pode ser um tema, uma frase, um gatilho, digamos assim, para uma música, e depois vamos para o estúdio e juntamo-nos, muitas vezes, com o João e com a Aurora para desenvolvermos essa ideia, que parte normalmente de histórias verídicas.
E quanto tempo, mais ou menos, é que demora esse processo?
Francisco: A parte de que mais gostamos é começar a escrever uma canção, ou seja, desenvolver o processo até ao refrão. Para o segundo verso, normalmente o que fazemos é deixá-lo guardado e, mais tarde, reescrevê-lo. É como se estivéssemos a começar outra vez outra canção, porque no segundo verso já estamos estafados. Mas, normalmente, a música fica feita num dia.
David: Acho que as músicas nos surgem muito facilmente. Quando fizemos o Writing Camp, surgiram “Pôr do Sol”, “Pobre Ex-Namorado”, “Casar é para Esquecer” e “Vizinha do Primeiro Andar”.
Francisco: “Pobre Ex-Namorado” ficou escrita pela metade; quando chegámos ao estúdio, escrevemos o resto.
Miguel: Uma curiosidade sobre “Pôr do Sol” é que, no dia antes de irmos gravar a música, estávamos a fechar o segundo verso através do nosso grupo do WhatsApp.
David: Nós temos as gravações de todas as músicas, do processo criativo, porque também os vídeos são baseados nesse conteúdo. Se nos lembrarmos de alguma coisa, gravamos um vídeo, gravamos um ditafone e aproveitamos esse conteúdo para depois publicar para as pessoas verem como foi feito.
Sentem que isso vos aproximou do público, estarem sempre a documentar o vosso processo?
David: Sim, sem dúvida. Acho que acreditaram no projeto a partir disso. Nós fizemos uma promessa que, quando “Pôr do Sol” passasse na rádio, íamos a Fátima a pé. E fomos. Sinto que as pessoas perceberam que, quando nos propomos a um desafio, cumprimos. Também acho que as pessoas ficaram muito próximas, porque nós também somos muito próximos delas. Nós gostamos de estar com as pessoas e gostamos de ter a nossa vida normal. Antes, queria tirar fotos com artistas e era tão difícil. Nós queremos aproximar-nos. Há miúdos que ficam a chorar depois dos concertos porque não têm uma foto connosco; há pais que fazem quilómetros para levar os miúdos aos concertos. Por que não darmos aquilo que nos estão a dar também de volta? Acho que os Vizinhos funcionam muito assim.
Francisco: Quando começámos esta série de “Um dia a começar uma banda do zero”, ainda não tínhamos lançado nenhuma música. Nem Spotify tínhamos. E, ao criar todo este engagement e esta envolvência antes de lançar sequer uma música, levou as pessoas a quererem que lançássemos uma música. Tanto que lançámos o primeiro vídeo no dia 8 de dezembro de 2024 e a produção só saiu em março.
Como é que tem sido lidar com o sucesso?
David: Acho que é um processo tão normal como nós estarmos a falar contigo. Porque nós somos muito alcançáveis, pelo menos, neste momento sentimo-nos muito assim, e acho que é a altura certa. Porque, se calhar, daqui a 10 ou 20 anos, vamos estar um bocadinho mais reservados e com uma vida um bocadinho diferente, com os nossos filhos, com a nossa família. Acho que vai ser um processo natural. Mas, neste momento, para conquistarmos o nosso público e para dar tudo aquilo que eles nos dão todos os dias, é importante não rejeitarmos uma foto, darmos um autógrafo. Fazemos questão de ficar no final de todos os concertos. Nunca vamos rejeitar uma foto. E às vezes até brincamos: “Olha, queres uma foto?” Isto aproxima-nos muito do público e acho que a nossa autenticidade também parte daí. Todos os dias nos lembramos de onde é que viemos.
O que é que ainda vos surpreende uns nos outros nesta fase?
David: Todos os dias nos surpreendemos com muita coisa. A nossa vida é uma aventura todos os dias; há sempre alguma coisa que acontece que gera conteúdo para o nosso “Dia X a começar uma banda do zero” [risos]: o Miguel perdeu-se em Itália, o Miguel deixou-se dormir hoje, o Tomás perdeu um computador, o David estava numa ilha perdido, o David foi pai no palco e nem sabia… É, por isso, que as nossas músicas são baseadas em factos reais, porque algumas partes aconteceram mesmo, como em “Onde é que eu tinha a cabeça?”, “Pobre Ex-Namorado” e “Casar É para Esquecer”.

No futuro, com quem gostariam de colaborar?
David: Os Quatro e Meia, em Portugal, e o Grupo Menos é Mais, no Brasil.
Já pensam num segundo álbum?
David: Sim, já estamos a pensar no segundo álbum. Queremos que tenha uma história e a ideia é que o primeiro álbum esteja ligado ao segundo, o segundo ao terceiro e assim sucessivamente.
Ganharam o prémio Vodafone Canção do Ano nos Prémios Play este ano, a única categoria cuja decisão é feita exclusivamente através da votação do público. O que significou para vocês esse reconhecimento?
David: Isso representa tudo o que são Os Vizinhos. É a prova de que o público está connosco e foi o culminar de um ano fantástico. O público disse sim a tudo o que nós fizemos. Os Vizinhos marcaram os Coliseus porque as pessoas permitiram que Os Vizinhos marcassem os Coliseus. Não estávamos à espera, achávamos que poderíamos ser os Artistas Revelação, e não a Música do Ano. Ficámos muito surpreendidos e agradecemos do fundo do coração a todos os portugueses que votaram, desde os mais novos aos mais velhos, e que quiseram que Os Vizinhos ganhassem este prémio, porque este prémio é do público.
O que está ainda por conquistar?
Miguel: Os Coliseus.
E depois de conquistarem os Coliseus?
David: Os nossos sonhos, depois de encher os Coliseus e de realizar esse sonho, passam muito por fazer um álbum com colaborações que nunca pensámos fazer. Passa muito por fazer músicas que vão ficar para a história, para um dia podermos dizer aos nossos filhos: “Olha, nós fizemos uma música com este artista, nós fizemos uma música que marcou esta geração”. E, depois desse álbum e dessas músicas que queremos fazer, acho que vem uma maior responsabilidade de fazermos um MEO Arena, se calhar, ou um estádio. Porém, queremos desfrutar do momento um bocadinho.
Ainda não conseguiram desfrutar?
David: Não. Tudo é um investimento, tudo é um processo. Nós compramos muita coisa todos os dias para darmos o melhor concerto possível às pessoas e, também, para deixarmos a nossa equipa técnica confortável. Neste momento estamos com uma equipa de luxo. Parece que, às vezes, nem vamos trabalhar.
Miguel: Felizmente conseguimos ter uma equipa em que, cada um na sua área, são os melhores em Portugal. Portanto, queremos agradecer-lhes, porque sem eles os Vizinhos não eram o que são.
Francisco: O Buba Espinho disse-nos uma coisa que nos ficou muito marcada, que foi: “Vocês, para terem uma tour em que 50% de chances já está garantido que é sucesso, é terem uma equipa técnica motivada.” Isso marcou-nos e foi isso que fizemos.



