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Uma ode à preguiça

Sofia Caetano, Psicóloga clínica, revela os beneficios de praticar a arte honesta e humanamente necessária de não fazer nada

Celebra-se hoje o Dia Internacional da Preguiça, uma data deliciosamente mundana.

Este dia existe para nos lembrar do que deveríamos praticar mais vezes: a arte honesta e humanamente necessária de não fazer nada.

Vivemos num mundo cada vez mais acelerado, em que aplaudimos de pé quem acumula tarefas e eventos como quem acumula reconhecimentos e medalhas. A sociedade repete-nos que quanto mais fazemos, mais valemos e acabamos a acreditar que uma agenda cheia é sinónimo de sucesso e estatuto social.

Este vício pela estimulação constante ignora o mais natural do ser humano: é que preguiçar não é um ato acessório, mas sim uma necessidade vital. Mas o funcionamento humano é inteligente, assente numa máquina que foi evoluindo ao longo de milhões de anos e, quando não decidimos parar, o corpo acaba por fazê-lo por nós. A fadiga instala-se, o humor piora, a criatividade deteriora-se e a vida vai-se reduzindo a uma sucessão de obrigações.

Mas e quando abrandar tem um sabor a culpa? O desconforto de estar parado, o “devia estar a fazer outra coisa” como se o simples ato de descansar fosse uma infração moral. Afinal, a tradição católica colocou a preguiça entre os sete pecados mortais!

E é nesse momento que nasce a confusão clássica: “Preguiçar é o mesmo que procrastinar”. Será que é?

Apesar de relacionadas, há diferenças! A preguiça é uma palavra com várias definições, podendo significar aversão ao esforço, morosidade ou simplesmente o gosto pelo ócio. Geralmente, envolve baixa motivação para agir, mas na sua génese não implica conflito interno. E a palavra génese não vem por acaso. Como no ser humano tudo tem nuances, a relação com a preguiça não é exceção e, de facto, para muitas pessoas, o ato de parar desperta conflito interno. Este surge quando se criticam por descansar, muitas vezes desvalorizando o papel protetor do descanso e impondo a si mesmas expetativas irreais de produtividade.

A procrastinação, por outro lado, é o ato de adiar uma tarefa prioritária, procurando evitar o desconforto, o aborrecimento ou pelo receio de falhar, mesmo sabendo que isso pode trazer consequências negativas. Enquanto a preguiça é necessária, a procrastinação pode ser um problema sério quando recorrente, gerando sofrimento a quem se vê preso num ciclo vicioso de “ter que fazer” e não conseguir começar.

Curiosamente, a preguiça e a procrastinação relacionam-se de forma inversa: a falta de descanso aumenta a tendência para procrastinar e quanto mais procrastinamos, mais sentimos que “não merecemos descansar”. Assim se alimenta um ciclo de fadiga, culpa e improdutividade, difícil de quebrar sem a aceitação de uma pausa verdadeira.

Talvez por isto mesmo exista o Dia Internacional da Preguiça. Para nos lembrar de uma verdade simples: descansar não é perder tempo, é recuperar capacidade. É desacelerar o suficiente para que o cérebro recupere vitalidade e a vida deixe de ser sentida como um sprint sem meta.

Porque, às vezes, ser preguiçoso é exatamente o que precisamos para voltar a ser humanos. Sem pressa, sem culpa e com a clareza de quem finalmente percebe que o descanso não é um luxo, mas sim uma competência e uma necessidade. E que, felizmente, está sempre ao alcance de quem decide parar.


Sofia Caetano

Psicóloga clínica dos Serviços de Saúde e de Gestão da Segurança no Trabalho dos Serviços de Ação Social da Universidade de Coimbra; coautora do livro STOP Procrastinação! (PACTOR).

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