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Vinho no Feminino: Carla Costa Ferreira

A fundadora e CEO da marca Conceito Wines em entrevista à LuxWoman

“Evoluir sem perder a essência” é o mote da Conceito, marca de vinhos fundada por Carla Costa Ferreira em 1997. Apesar do mundo dos vinhos sempre ter feito parte da sua vida — desde as “férias grandes” em Cedovim, aldeia da família paterna no Douro Superior —, tudo começou na década de 80, quando, ainda na faculdade, plantou a sua primeira vinha.

Com o passar dos anos foi aprofundado o seu “envolvimento no mundo da vinha e do vinho”: comprou a sua primeira quinta, a Quinta de Vale de Cavalos, em 1995; fundou a empresa em 1997; plantou novas vinhas na década seguinte; construiu uma adega própria em 2005; e lançou os primeiros vinhos Conceito em 2006 e 2007. Desde então, a Conceito distingue-se pela busca da pureza, elegância e autenticidade, ligando tradição e inovação, recuperando castas antigas como o Bastardo e criando vinhos que revelam a diversidade e a complexidade do Douro Superior.

A Carla Costa Ferreira é…

Não sou a pessoa indicada para responder a esta questão. Existe sempre o risco de caracterizações subjetivas e pouco rigorosas. Vejo-me como uma mulher idealista, por vezes utópica, que gosta de sonhar e elaborar projetos para concretizar esses sonhos e aos quais é capaz de dedicar trabalho, amor e paixão.

Carla Costa Ferreira. Créditos: Anabela Trindade

Quando é que se começou a apaixonar pelo mundo dos vinhos?

A minha paixão inicial, desde que me conheço, foi Cedovim, a aldeia perdida a meio caminho entre Vila Nova de Foz-Côa e São João da Pesqueira, origem da família paterna e onde sempre passei os 3 meses de “férias grandes”. A ligação ao mundo dos vinhos, mais propriamente ao vinho do Porto, sempre fez parte integrante do ambiente que me rodeava. A ligação direta à viticultura surgiu com o plantio da 1ª vinha na década de 80, quando ainda estava na faculdade. A compra da 1ª quinta (Vale de Cavalos) em 1995, a criação da empresa em 1997, as plantações de vinhas que se seguiram na década seguinte, a construção de adega própria em 2005, data do primeiro vinho com rótulo próprio, foi apenas um aprofundamento no envolvimento no mundo da vinha e do vinho. Foi o viver integralmente a paixão da terra e do vinho: para mim o vinho está sempre ligado à terra e às vinhas. Vinte anos volvidos, em 2025, à paixão pela vinha e pelos vinhos cresce simultaneamente uma vontade enorme de desenvolver e aprofundar um regresso à essência: um olhar renovado sobre o que significa fazer vinho hoje no Douro, a busca incessante dos detalhes que as vinhas nos podem trazer.

“Evoluir sem perder a essência” em conjunto com todos os que comigo trabalham é o meu objetivo e a minha paixão.

Como foi o seu percurso profissional?

O meu percurso profissional na área dos vinhos foi tranquilo. Todos os passos e avanços foram naturais e todos os percalços são os sentidos pelos viticultores portugueses.

As vinhas da Conceito

Como nasceu a Conceito Wines? Qual foi a maior dificuldade no início?

A Conceito, enquanto empresa, surgiu em 1997 com a necessidade de gerir as vinhas e vinhos do porto que eram feitos com as uvas próprias em instalações alugadas. A necessidade de produzir vinhos do Porto com qualidade e o desejo de iniciar a produção de vinhos tranquilos, rapidamente conduziu ao projeto e instalação de adega própria e vinificação sob marcas próprias. A adaptação ao mercado e comercialização de vinho engarrafado foi a maior dificuldade sentida: o lançamento dos primeiros vinhos foi nos anos de 2006 e 2007, seguindo-se a crise de 2008 e a necessidade de ir para o mercado internacional. Mas posso dizer que de forma global foi aprender a caminhar caminhando, em que um passo se segue ao outro, de forma sequente e sem grandes percalços.

O que distingue a Conceito dos restantes produtores da região?

Foi uma questão que coloquei logo no início quando a adega foi construída e o primeiro vinho lançado. Qual era o conceito? Em que é que o projeto se distinguia dos outros produtores de vinhos da região? O “Conceito” marca foi mesmo registado. Na altura, como agora, o objetivo é a pureza, a elegância e autenticidade, sem nunca perder a identidade, a essência. As marcas distintivas da Conceito são a criação de pontes entre a tradição e a inovação, o passado e o que se constrói todos os dias — na terra, com o aumento progressivo de produção biológica, na adega e, igualmente importante, nas relações; renovar energia e a vontade de criar vinhos ousados com a busca fiel da diversidade e complexidade dos nossos terroirs; criar equipa unida, renovada em 2024, empenhada em honrar a história da marca, construindo todos os dias o seu futuro na excelência da enologia, nas provas de vinhos, nas visitas guiadas à adega e passeios pelas vinhas, no desejo genuíno de proporcionar experiências vínicas memoráveis. Se quiser resumir a particularidade principal da Conceito direi que é a equipa que trabalha diariamente.

Conceito Bastardo Branco

Qual é o vinho da Conceito de que mais se orgulha? Porquê?

Tenho muito orgulho em dois vinhos por motivos bem diferentes e nem sequer são os topos de gama. São motivações muito pessoais. Um deles é o Conceito Bastardo. Não conheço outros produtores com talhões apenas de uvas Bastardo. A plantação foi feita com o objetivo de recuperar castas antigas e tradicionais da região – a casta bastardo estava no topo da lista das castas usadas antigamente no vinho do Porto – que desapareceu progressivamente pela baixa produção, falta de cor, sensibilidade a doenças e maturação precoce. É uma vinha de que me orgulho muito e é um dos vinhos preferidos. O outro é um vinho recente, feito em 2024, e é um monocasta de Touriga Nacional que em breve estará no mercado. É seguramente um topo de gama com uma qualidade difícil de conseguir num vinho monocasta. O orgulho provém do facto de este vinho obedecer ao lema “Evoluir sem perder a essência”. É seguramente um grande vinho que faz a ponte entre a tradição e a inovação: a tradução fiel da diversidade e complexidade do terroir, a renovação de energia e a vontade de criar vinhos ousados que honram a história da marca.

Para si, o que faz um bom vinho?

Não há bom vinho sem boas uvas, isto é para mim uma regra. O clima, solo, relevo e práticas agrícolas e a maturação adequada (equilíbrio entre açúcar, acidez e compostos aromáticos) influenciam definitivamente o sabor da uva, acrescentando ainda as características próprias da casta. Só de uvas excecionais se conseguem fazer vinhos excecionais. Claro que a vinificação e estágio têm impacto: o tipo de leveduras (indígenas ou outras); o controlo da temperatura, o material das cubas (madeira, cimento ou inox); tempo e condições de estágio. Para mim, um grande vinho tem de ter equilíbrio perfeito, onde, em cada gole, se vão mostrando as múltiplas camadas de aromas, sabores limpos e definidos que persistem na boca. Um grande vinho desperta sempre a emoção e é sempre uma experiência sensorial única. Um bom vinho tem sempre duas assinaturas: a da vinha e a do enólogo.

A equipa da Conceito

Enquanto mulher, sente que alguma vez a trataram de forma diferente nesta área profissional?

Não, nunca senti discriminação pessoal direta nesta área profissional ou noutra. Indireta, sim, mas é comum a todas as áreas profissionais. Como qualquer mulher senti sempre a acumulação de tarefas dentro da família, como tratar da casa, da família, dos filhos. É com satisfação que vejo mudanças grandes na sociedade, sobretudo nas camadas jovens.

Portugal oferece qualidade a baixo preço?

Sim. Portugal tem vinhos de excelente qualidade a preços bastante acessíveis, especialmente em comparação com outras regiões vinícolas internacionalmente mais conhecidas, como França, Itália ou Califórnia. Creio existirem razões para esta elevada relação qualidade/preço. A longa tradição na produção associada à inovação tecnológica tem conduzido a um aumento de qualidade. A grande variedade de castas portuguesas, mais de 250, permite produzir vinhos únicos, complexos, mas com pouca visibilidade internacional ligada ao fraco conhecimento das castas portuguesas. Por outro lado, o custo de vida e da terra em Portugal ainda é relativamente baixo, o que permite a produção de vinhos de gama superior a custos mais reduzidos. Este é um dos pontos críticos, pois o paradigma está a mudar: aumento dos custos de produção e escassez de mão de obra com preços dos vinhos a manterem-se ou mesmo a descer, conduzindo à insustentabilidade da produção. A diversidade de vinhos, o elevado número de marcas associadas a uma multiplicidade de micro-empresas e de pequenos produtores, coloca problemas de comunicação, divulgação e marketing.

Que desafios atuais enfrenta o setor vitivinícola português?

O sector vitivinícola enfrenta um dos momentos mais complexos e difíceis, quer para os produtores de uvas, quer para os vinificadores. No caso da Conceito enfrentamos ambas as dificuldades. O excesso de stock das grandes importações de vinho Espanhol ou de mosto concentrado, a legislação e controlo existentes (ou insuficientes), ameaçam os viticultores nacionais. Para quem é vitivinicultor é muito difícil entender que o IVV (Instituto da Vinha e do Vinho) diga que há 120 milhões de litros de vinho nas adegas e que se importe 1 milhão de litros de vinho espanhol diariamente que chega aos consumidores muitas vezes como vinhos DOC e contribuindo em larga escala para a baixa de preços de uvas e vinho e, mais grave ainda, do meu ponto de vista, para a descaracterização do vinho português e comprometendo a confiança no setor.

Creio ser necessário tornar o sector mais equilibrado e sustentável adotando medidas que permitam vencer os desafios atuais: a pressão ambiental com as alterações climáticas e diminuição da aplicação de fitofármacos; a escassez de mão de obra; a revolução tecnológica e digital; a diminuição do consumo de álcool; a elevada competitividade internacional.

Temos pouca reputação no estrangeiro? O que deve ou pode mudar?

Sim. Essa falta de reputação é bem percetível no valor que o consumidor está disposto a pagar por um vinho. É frequente ouvir lá fora “para vinho português é demasiado caro”. Acho que qualquer produtor e/ou consumidor é capaz de reconhecer que, para a mesma qualidade um vinho francês custa facilmente 3 a 4 vezes mais.  E este paradigma aumente quando se trata de vinho do Porto devido aos baixos preços a que se encontra nas prateleiras dos supermercados no estrangeiro.

É urgente alterar este status quo. Do meu ponto de vista são necessárias campanhas nacionais que promovam a autêntica identidade dos vinhos portugueses, destacando as regiões, as castas únicas, a autenticidade dos vinhos, a ligação dos vinhos às regiões com as suas tradições e cultura. Criar legislação que informe claramente o consumidor, com rótulos dos vinhos que apresentem detalhes sobre a origem das uvas, região de produção e práticas utilizadas, e não apenas os teores calóricos. Ser transparente e criar uma relação de confiança com o consumidor para que tenha perceção de valor. Explorar novos mercados e nichos, incluindo vinhos sustentáveis com mais valor acrescentado.

Algumas novidades no portefólio da Conceito

É difícil conquistar consumidores mais jovens? 

Se for apenas com palavras, sim é difícil. Já experimentei dar bons vinhos a jovens que me diziam não gostarem de vinho. A reação foi sempre espantosa: “deste vinho eu gosto”. Creio que é o preço que afasta os jovens dos bons vinhos. Esta ausência total da cultura do vinho mantém-se durante muitos anos em alguns e outros nem chegam a adquiri-la. O que os jovens consomem é o vinho mais barato que encontram no supermercado e costumam frequentemente misturá-lo com outras bebidas ou fazer sangria. Vinhos até 2 ou 3 euros ou cerveja é o que podem comprar. E já agora atrevo-me a acrescentar que não são apenas os jovens a não ter condições económicas para experimentar bons vinhos. Vejo uma grande iliteracia vinícola que atravessa grande parte da população, apesar de estarmos num país produtor de excelentes vinhos.

 O que ainda sonha fazer na área do vinho?

Conquistar os mais jovens. Inovar na tentativa de perceber como se pode fazer. Foi nesta linha que lançamos para o mercado este ano vinhos diferentes no nosso portfólio. Leves, frescos, o Bastardo branco (um blanc de noir), o Alvarinho do douro superior, o Arinto de curtimenta são novas experiências que iremos testar no mercado. Estas experiências, estes novos vinhos, não são mais do que um olhar renovado sobre o Douro, sobre o que significa fazer vinho hoje no Douro, uma busca incessante dos detalhes que as vinhas nos podem trazer, que traduz o que sonho ajudar a fazer na área do vinho.

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