[wlm_register_Passatempos]
Siga-nos
Topo

Entre silêncios e máscaras: ser mulher no espectro do autismo

No dia 2 de abril assinala-se o Dia Mundial da Consciencialização do Autismo, uma data que convida não apenas à informação, mas, acima de tudo, a uma mudança real de olhar.

Falar de autismo hoje implica ir além das imagens estereotipadas que durante décadas dominaram o imaginário coletivo. Exige reconhecer a diversidade de experiências, percursos e identidades que coexistem dentro do espectro, incluindo aquelas que permanecem frequentemente invisíveis.

Tradicionalmente, o autismo foi descrito a partir de perfis masculinos, o que contribuiu para que muitas raparigas e mulheres passassem despercebidas durante anos. Desde cedo, que são obrigadas a aprender a observar, a  imitar e adaptarem-se. Desenvolvem estratégias de camuflagem social que lhes permitem encaixar nas expetativas sociais, mas que têm um custo emocional elevado. Por detrás de um sorriso ensaiado ou de uma interação cuidadosamente construída, pode existir um esforço contínuo, exaustivo e solitário.

A dificuldade no acesso ao diagnóstico precoce é uma das consequências mais marcantes desta invisibilidade. Muitas mulheres apenas descobrem que são autistas já na idade adulta, frequentemente após anos de sofrimento psicológico, sentimentos de inadequação ou diagnósticos errados. Este reconhecimento tardio pode ser simultaneamente libertador e doloroso. Libertador porque finalmente dá sentido a experiências vividas ao longo da vida. Doloroso, uma vez que revela um percurso feito sem o apoio e a compreensão necessários.

E o autismo no adulto é ainda um território pouco explorado em termos sociais e clínicos. A vida adulta traz novos desafios, como a integração profissional, as relações afetivas e a construção de uma identidade autêntica. Para muitas mulheres autistas, estes desafios são intensificados pela pressão social para corresponder a papéis de género específicos, muitas vezes incompatíveis com a sua forma de ser e de estar.

Falar de autismo é também reconhecer que a saúde mental e o bem-estar não podem ser dissociados das narrativas femininas contemporâneas. A elegância, a sofisticação e o sucesso não devem ser definidos por padrões rígidos, mas sim pela capacidade de cada mulher viver de forma alinhada consigo própria. Isto inclui o direito a ser diferente, a estabelecer limites sensoriais, a comunicar de forma própria e a existir fora das expetativas normativas.

Neste Dia Mundial da Consciencialização do Autismo, o convite é claro: escutar mais, pressupor menos e criar espaços onde a diferença não seja apenas tolerada, mas também verdadeiramente compreendida e valorizada. Porque a inclusão não se constrói só com visibilidade, mas, acima de tudo, com conhecimento, empatia e transformação real das práticas sociais.

Reconhecer as mulheres autistas é, no fundo, reconhecer a complexidade da experiência humana. E talvez seja precisamente aí, nesse reconhecimento, que reside a possibilidade de uma sociedade mais justa, mais sensível e mais profundamente humana.


Pedro Rodrigues

Psicólogo com especialidade em Psicologia Clínica e da Saúde e autor do livro Intervenção Psicológica em Pessoas Adultas com Autismo (PACTOR Editora)

 

Veja mais em Opinião

PUB


LuxWOMAN