Depois de estrear a segunda temporada na plataforma de streaming HBO Max, Harry Potter: Wizards of Baking chega ao TLC no dia 22 de dezembro. Para felicidade dos potterheads portugueses, há um concorrente português no programa inspirado no universo de Harry Potter.
Professor universitário e especialista em gastronomia sensorial, Rui Mota levou a sua criatividade e paixão pela ciência até às cozinhas mágicas do programa. Ao lado da sua colega Angel, formaram uma das oito equipas participantes. Juntos recriaram artefactos mágicos, criaturas e momentos lendários do universo criado por J. K. Rowling — tudo em forma de sobremesas e esculturas comestíveis —, posteriormente avaliados pelo júri composto pela chef Carla Hall e pelo visionário gastronómico Jozef Youssef.
A LuxWoman falou com o chef português sobre a experiência de competir num dos programas de culinária mais vistos do mundo, o improvável convite que o levou até Los Angeles, o trabalho em equipa com a colega Angel e o impacto que esta aventura teve na sua vida profissional e pessoal.
É um fã de Harry Potter?
Sou. Cresci com os filmes. Foi um acompanhamento por fases, ou seja, cada filme que saía era como se fosse uma etapa da minha adolescência. Identificava-me com as dificuldades que ele passava e trazia esse apoio emocional para a minha vida. Por isso, sou fã de Harry Potter, claro que sim.
Rui Mota
Isso motivou a sua participação no programa?
Confesso que, ao início, não sabia qual era o tema do programa. Só nos foi informado, numa fase preliminar de casting, que seria um programa de pastelaria e cake design, mas depois, numa segunda fase, foi anunciado — e até pedido — para vermos a primeira temporada. Eu não tenho televisão em casa, então vi a primeira temporada e fiquei super entusiasmado, ainda mais nervoso e ansioso. Foi a minha primeira participação num programa deste género.
Como surgiu a oportunidade de participar no programa?
Em janeiro, recebi um e-mail na minha inbox que parecia muito spam, então ignorei, nem sequer respondi. Depois, tive uma segunda mensagem no Instagram, também da equipa de casting, a dizer-me: “Olha, enviámos-te o convite por e-mail, vê se recebeste no dia tal, gostávamos muito que participasses e que trouxesses a tua onda da gastronomia molecular para o programa.” Percebi então que não era spam e preenchi o formulário. Era quase um currículo online, onde submetemos tudo: fotografias, cursos que tirámos, sítios onde trabalhámos, experiências com programas de televisão. Passado um ou dois meses, obtive uma resposta a dizer que tinha passado à segunda fase de casting e depois à terceira, que foi em Los Angeles. Eu era o único europeu no programa. Eles tiveram quase 650 mil candidaturas nesse formulário, das quais selecionaram apenas 40, e depois 16 passaram verdadeiramente ao programa. Acho que só isso já é uma grande conquista.
O Rui e a Angel
No programa não está sozinho e forma equipa com a Angel. Como foram atribuídos os pares? Já se conheciam?
Por acaso, tive o privilégio de conhecer a Angel nos castings em Los Angeles. Ela estava lá nesse dia — éramos nove pessoas — e, apesar de estarmos em sítios opostos na cozinha, quando fizemos o casting houve um exercício em que tivemos de preparar uma sobremesa numa hora, e ela foi emparelhada comigo. A produção já nos juntou para testar, ou seja, queria perceber como trabalhávamos em conjunto. Passámos os dois ao casting, por isso mantiveram a dupla no programa. Mas não nos conhecíamos além disso.
Deram-se logo bem?
Sim. A Angel é chilena, mora em Denver há bastantes anos, no Colorado, mas como tem aquele sangue latino e nós também, demos-nos muito bem. Às vezes trocávamos ideias em espanhol para os outros concorrentes não perceberem.
E como foi trabalhar em equipa?
Foi espetacular. Apesar de termos personalidades e culturas um pouco distintas, demos-nos muito bem, porque percebemos que aquilo era um jogo e que, para ganharmos, tínhamos de o fazer em equipa. A Angel já tinha experiência em outros programas de competição, principalmente na Food Network. Isso deu-nos uma vantagem, pois já sabia certas dicas e conseguiu transmiti-las para irmos mais além.
O Rui e a Angel
Ainda mantém contacto com a Angel?
Sim. Ainda na semana passada fizemos uma videochamada. Ela estava no Chile a visitar a família, que já me conhece toda. Os latinos são pessoas muito calorosas. Recebem-nos sempre bem e isso é fantástico. Vamos falando, trocamos conselhos, seja em vídeo, seja profissionalmente. Ficámos amigos.
No geral, o ambiente no programa foi positivo?
Foi. Se reparar, nos episódios nem se vê competição negativa. Tivemos todos juntos dez dias antes de começar a gravar para conhecer os sets, as regras, os contratos, o guarda-roupa, a maquilhagem. Acabámos por estar juntos numa sala, com muito tempo de espera, onde nos conhecemos bem. Apesar de haver chefs de pastelaria de hotéis de cinco estrelas em Londres e os melhores cake designers do mundo, todos estávamos a sofrer o mesmo nível de pressão. Isso ligou-nos ainda mais. Criámos até um grupo de WhatsApp e falamos todos os dias.

A pressão das câmaras foi maior do que imaginava?
Como sou professor universitário em duas universidades e duas escolas de cozinha, o à-vontade de falar e ser observado por muitas pessoas já faz parte do meu quotidiano. Isso ajudou-me a lidar com as câmaras e com o tipo de pressão. Cada equipa tinha cerca de sete ou oito câmaras profissionais apontadas, e qualquer erro era captado. Este programa tem projeção mundial e até foi, no ano passado, a série televisiva de culinária mais vista do mundo. Claro que isso aumenta a pressão, mas beneficiei da experiência de comunicação que já tinha das aulas e palestras. Como tudo era tão rápido e organizado, o cérebro nem tinha tempo de processar o que se estava a viver.
Só quando se acaba de gravar é que se tem noção…
Só depois, com a adrenalina a baixar, é que percebes: “Ok, passou esta enchente, esta maré de emoções, desafios e stresses. Agora consigo digerir tudo.”
Os 16 concorrentes da segunda temporada com os apresentadores James e Oliver Phelps
Quanto tempo demorou a gravação do programa?
Foram 21 dias. Desses, nove não gravámos porque estavam dedicados à produção, à roupa, à maquilhagem, às regras… Começámos a gravar a 10 de junho e depois foi tudo seguido, quase um episódio por dia.
Em relação à roupa: vemos-te sempre com o mesmo uniforme. Era mesmo assim?
A roupa tinha sempre o mesmo design, mas vários exemplares iguais. Tínhamos uma costureira, duas assistentes e duas estilistas sempre disponíveis. Cada concorrente tinha quatro ou cinco mudas de roupa iguais, feitas à medida, de acordo com a personalidade e a equipa. Por exemplo, se gravássemos o episódio 2 hoje, usávamos aquela roupa; se se sujasse, era limpa e guardada para usar de novo em avaliações futuras. Havia ainda uma versão “S.O.S.”, para imprevistos.
Qual foi o desafio mais stressante?
O primeiro. Estávamos num país diferente, com ingredientes novos, e com os irmãos Weasley ao lado a fazer perguntas, tudo sob sete câmaras enormes. Até nos habituarmos à cozinha, aos nomes dos ingredientes e ao ambiente, foi desafiante. O terceiro episódio também foi fora da minha zona de conforto: tínhamos de recriar artefactos usados nos filmes apenas com as mãos, sem moldes. A Angel fez a lanterna do Hagrid, e eu uma chávena com pires, igual à usada numa das cenas com o Harry e a Hermione — tudo 100% em chocolate e pintado à mão. As seis horas pareciam muitas, mas voaram.

Qual foi a criação de que mais se orgulha?
Não tive uma favorita. Talvez a primeira, pela narrativa. A Mandrágora tinha uma componente sensorial interessante. Trabalhei os sentidos — som, tato e gosto — usando elementos que bloqueavam o som e ingredientes que causavam dormência na língua. O júri apreciou muito essa abordagem sensorial.
A gastronomia sempre fez parte da sua vida?
De forma resumida: aos 14 anos entrei num curso profissional de cozinha em Tomar. Fui o melhor aluno da turma e recebi a oportunidade de fazer um estágio internacional em Itália, num hotel de cinco estrelas, e depois no Bela Vista Hotel & Spa, em Portimão, em 2012. Concluí o secundário e licenciei-me em Produção Alimentar em Restauração na Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril. Fiz estágios em Londres e Barcelona. Mais tarde frequentei o mestrado em Ciências Gastronómicas (ISA e FCT-NOVA) e dediquei-me à investigação em perceção sensorial e food design. Fui distinguido com o prémio de mérito da escola e colaborei com a Vista Alegre e os irmãos Roca no desenvolvimento de pratos para a gama Chef Collection.
Depois de defender a tese, abri um restaurante em Lisboa, no Lumiar, até à chegada da pandemia. Comecei a dar aulas e foquei-me na vertente académica. Há cinco anos que sou professor universitário em várias instituições, incluindo a Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril, o Instituto Rio e a Universidade do Porto.
Pensa em abrir um restaurante novamente?
Por agora, não. Talvez quando tiver uns 40 ou 45 anos. Sinto-me uma águia numa gaiola se estiver apenas fechado num restaurante. Apesar de poder alterar o menu de seis em seis meses, torna-se limitador. Adoro gerir equipas, motivar e ensinar, por isso encontro nas aulas o meu espaço criativo. No ensino, posso transmitir o meu cunho gastronómico aos futuros cozinheiros, modernizando técnicas sem alterar os sabores tradicionais portugueses.
Além de ensinar, faz outros tipos de trabalho como chef?
Sim. Recentemente tenho feito ativações de marcas. Por exemplo, a CUPRA lançou um carro com bancos aquecidos e um conforto especial — o meu trabalho é transformar essa experiência em sabores num catering temático. Também colaborei com o Pavilhão do Conhecimento num menu inspirado na ciência, com criações como uma francesinha desconstruída em formas geométricas, uma “praia comestível” com vários tipos de peixe e algas, e um gaspacho fluorescente que brilhava no escuro e era servido numa lâmpada, remetendo para a luz UV. São experiências que me dão imenso prazer.
Rui Mota
Que aprendizagens retira desta experiência, a nível profissional e pessoal?
Uma competição desta envergadura acrescenta sempre algo. Após ser selecionado, investi em formações nas áreas em que estava menos à vontade: cake design, esculturas de açúcar e chocolate. Fui a Londres estudar e acredito que isso me fez crescer imenso como profissional. Em termos de projeção, esta experiência vai certamente abrir vários caminhos — só o tempo o dirá.



