Durante a infância, o ranger dos dentes é um comportamento relativamente frequente e, muitas vezes, motivo de preocupação para os pais. Embora seja habitualmente associado ao bruxismo, pode estar relacionado com alterações do sono, ansiedade, dificuldades respiratórias ou outros fatores do desenvolvimento oral. Mas o que distingue, afinal, o ranger dos dentes do bruxismo? Segundo André Mariz de Almeida, Coordenador da área de Dor Orofacial e Sono na MALO CLINIC Lisboa e Presidente da Sociedade Portuguesa de Disfunção Temporomandibular, Dor Orofacial e Sono (SPDOF), “ranger os dentes é aquilo que os pais conseguem ouvir ou observar”, enquanto o bruxismo é o termo clínico usado para descrever uma atividade repetitiva dos músculos da mastigação, que pode incluir ranger, apertar ou encostar os dentes, ou até tensionar a mandíbula sem contacto dentário.
A questão ganha particular importância numa fase em que muitas crianças em idade escolar apresentam algum grau de mal oclusão — entre 60% a 70% —, frequentemente sem terem sido avaliadas precocemente por um ortodontista. De acordo com Filipa Maria Roque, Médica Dentista na MALO CLINIC Lisboa e Coordenadora do Departamento de Odontopediatria, esta condição pode dificultar a mastigação, aumentar o risco de traumatismos dentários, dificultar a higiene oral, favorecer desgaste dentário e até influenciar a autoestima da criança. Perante estes sinais, importa perceber quando o ranger dos dentes faz parte de uma fase passageira do crescimento e quando pode exigir uma avaliação mais cuidada.
Porque é que as crianças rangem os dentes?
André Mariz de Almeida: Ranger os dentes durante o sono é relativamente frequente na infância. Estudos sugerem que o bruxismo pode ocorrer em cerca de 20% a 40% das crianças, embora os números variem com a idade e a forma como é avaliado. Hoje sabemos que não existe uma única causa. O bruxismo pode surgir associado a fatores do sono, componentes emocionais e comportamentais, stress, ansiedade, desafios escolares, situações de bullying, ambientes mais competitivos ou até determinadas características da criança, como maior impulsividade ou hiperatividade. Pode também estar associado a fatores médicos como dificuldades respiratórias durante o sono ou refluxo. Gosto muitas vezes de explicar aos pais que o bruxismo se comporta um pouco como a febre: pode aparecer em determinados momentos da vida, aumentar ou diminuir de intensidade, e nem sempre significa que existe uma doença, e deve ser controlado da mesma forma, vigiar desde que não cause impacto negativo na saúde e bem-estar da criança. O importante é perceber o contexto, avaliar e manter sempre controlado.
André Mariz de Almeida, Coordenador da área de Dor Orofacial e Sono na MALO CLINIC Lisboa e Presidente da Sociedade Portuguesa de Disfunção Temporomandibular, Dor Orofacial e Sono (SPDOF)
Isto é normal no desenvolvimento infantil?
André Mariz de Almeida: Temos que perspetivar o termo normalidade, se estamos a falar de poder acontecer a criança ter bruxismo, sim. Em muitas crianças, ter bruxismo pode fazer parte do desenvolvimento e tende a variar ao longo do crescimento. O bruxismo infantil frequentemente apresenta períodos de maior ou menor intensidade e muitos casos reduzem espontaneamente com a idade. O importante é perceber se esse comportamento está isolado ou se surge acompanhado de outros sinais que possam justificar uma avaliação mais detalhada. O simples facto de a criança ranger os dentes não deve ser automaticamente encarado como motivo de preocupação.
Ranger os dentes é sinónimo de bruxismo?
André Mariz de Almeida: Não exatamente. Ranger os dentes é aquilo que os pais conseguem ouvir ou observar. Já o bruxismo é o termo clínico usado para descrever uma atividade repetitiva dos músculos da mastigação, que pode incluir ranger, apertar ou encostar os dentes, ou até tensionar a mandíbula sem contacto dentário, como por exemplo apertar a língua ou morder as bochechas. Além disso, o bruxismo pode acontecer em dois momentos diferentes: durante o sono — o chamado bruxismo do sono — ou durante o dia, quando a criança está acordada, o chamado bruxismo de vigília. No primeiro caso, os pais costumam ouvir o ranger durante a noite. No segundo, pode ser mais subtil: a criança aperta os dentes, contrai a mandíbula, morde objetos ou mantém a boca em tensão enquanto está concentrada, ansiosa ou sob pressão. É importante sublinhar que o bruxismo não é automaticamente uma doença. Pode surgir em fases diferentes da vida, com maior ou menor intensidade. O que realmente interessa avaliar é se existem sintomas, consequências ou fatores associados que justifiquem intervenção.
Que consequências pode ter o ranger nos dentes?
André Mariz de Almeida: Na maioria das crianças não surgem consequências importantes. No entanto, quando é intenso e persistente, pode provocar desgaste dentário, aumento da sensibilidade dos dentes, desconforto nos músculos da face, dores de cabeça ou alterações da qualidade do sono, inclusivamente pelo barulho que os dentes fazem a ranger ou apertar.
Mas existe uma questão muito importante: muitas vezes o problema principal não é o ranger dos dentes em si, mas aquilo que ele pode estar a sinalizar. Se o bruxismo estiver associado, por exemplo, a alterações respiratórias durante o sono, refluxo ou fatores emocionais importantes, essas situações merecem atenção. É importante referir que o bruxismo neste momento não é apenas ranger de dentes, hábitos como manter os dentes em contacto durante a noite ou durante o dia, morder a língua, o lábio ou as bochechas são consideradas bruxismo.
A que sinais devem estar os pais atentos?
André Mariz de Almeida: Os pais devem olhar para a criança como um todo, e não apenas para os dentes. O ranger ou apertar dos dentes ganha importância quando aparece associado a outros sinais.
Devem estar atentos a dores de cabeça frequentes, dor na face ou nos maxilares, desgaste acentuado dos dentes, dificuldade em mastigar, sono agitado, ressonar regular, respiração pela boca, pausas respiratórias durante o sono, cansaço durante o dia ou alterações do comportamento.
Também é importante observar sinais emocionais: ansiedade, irritabilidade, maior agitação, dificuldades escolares, bullying, excesso de competição ou pressão para o desempenho. Em algumas crianças, o bruxismo pode coexistir com sinais de hiperatividade ou défice de atenção. Um dos pontos essenciais a avaliar e controlar é o tempo e horário de utilização de gadgets. A utilização deste tipo de aparelhos está amplamente ligada ao aumento de bruxismo e alterações de sono, os horários devem ser limitados e afastados da hora de dormir pelo menos 2 horas.
O mais importante é perceber se houve uma mudança no padrão habitual da criança.
Quando devem procurar uma avaliação especializada?
André Mariz de Almeida: Os pais devem procurar avaliação quando o bruxismo é intenso, persistente ou acompanhado de sintomas. Não é necessário consultar apenas porque se ouviu a criança ranger os dentes uma ou duas vezes; mas se o comportamento se repete, se há dor, desgaste dentário, sono de má qualidade ou sinais respiratórios, deve ser avaliado.
Um sinal particularmente importante é o ressonar frequente. Uma criança que range os dentes e ressona regularmente deve ser observada, porque pode existir uma alteração respiratória do sono.
Também faz sentido procurar ajuda quando os pais notam maior ansiedade, alterações comportamentais, cansaço diurno, dificuldade de concentração ou queixas frequentes de dor de cabeça ou dor facial.
O objetivo não é apenas “parar o ranger”. É perceber o que está por trás e proteger a criança das possíveis consequências.
Existem hábitos que influenciam o ranger dos dentes?
André Mariz de Almeida: Sim, o bruxismo pode ser influenciado por hábitos de sono, fatores emocionais e comportamentos do dia a dia.
Rotinas de sono irregulares, privação de sono, excesso de ecrãs antes de dormir, stress, ansiedade, bullying, pressão escolar ou competitiva podem aumentar a tensão muscular e favorecer episódios de bruxismo, sobretudo de vigília.
Durante o dia, alguns sinais são muito importantes: apertar os dentes enquanto estuda, morder lápis ou unhas, mascar pastilha com frequência, manter a mandíbula contraída ou respirar predominantemente pela boca.
Também devemos estar atentos a fatores médicos, como dificuldades respiratórias durante o sono e refluxo, que podem estar associados ao bruxismo em algumas crianças.
Mais do que procurar uma causa única, devemos observar o conjunto: sono, respiração, emoções, comportamento e saúde oral.
Filipa Maria Roque, Médica Dentista na MALO CLINIC Lisboa e Coordenadora do Departamento de Odontopediatria
Estima-se que entre 60% a 70% das crianças em idade escolar apresentem algum grau de mal oclusão. O que esta mal oclusão pode causar?
Filipa Maria Roque: As mal oclusões que definimos como alterações na posição dos dentes ou na forma como os dentes superiores e inferiores encaixam — são relativamente frequentes durante o crescimento.
Nem todas necessitam de tratamento, mas algumas podem ter impacto funcional e estético.
Dependendo do caso, podem dificultar a mastigação, aumentar o risco de traumatismos dentários, dificultar a higiene oral, favorecer desgaste dentário ou influenciar a autoestima da criança, sobretudo em idades mais sensíveis do ponto de vista social.
Além disso, algumas alterações podem coexistir com hábitos orais ou problemas respiratórios que devem ser avaliados. É, no entanto, de notar que nesta fase de crescimento temos hipóteses terapêuticas muito mais eficazes para utilizar com um resultado mais previsível na controlo e tratamento da má oclusão.
Sobre os cuidados mais gerais de higiene oral. Como deve ser a rotina dos mais pequenos?
Filipa Maria Roque: A saúde oral deve começar a ser cuidada desde os primeiros meses de vida. Assim que surge o primeiro dente, deve iniciar-se a escovagem com uma escova adequada à idade e uma pasta dentífrica fluoretada, na quantidade recomendada pelo médico dentista. A rotina ideal passa por escovar os dentes duas vezes por dia – obrigatoriamente antes de dormir – e adaptar os cuidados à idade da criança. Até aos 6-7 anos, a escovagem deve ser supervisionada ou realizada pelos pais, porque a criança ainda não tem a destreza suficiente para garantir uma higiene eficaz. Além da escovagem, é importante introduzir o uso do fio dentário assim que existam dentes em contacto, ajudando a prevenir cáries interdentárias e problemas gengivais desde cedo. A alimentação tem igualmente um papel fundamental na saúde oral infantil. Deve privilegiar-se uma dieta equilibrada e evitar o consumo frequente de açúcares e bebidas açucaradas.
Quando devem ir a um dentista pela primeira vez?
Filipa Maria Roque: A primeira consulta deve acontecer com a erupção do primeiro dente ou durante o primeiro ano de vida. Muitas vezes os pais associam a ida ao dentista apenas ao aparecimento de problemas, mas a Odontopediatria tem uma componente muito importante de prevenção. Com as consultas regulares conseguimos avaliar o desenvolvimento oral da criança, orientar os pais sobre higiene, alimentação, uso de chupeta ou biberão e acompanhar o crescimento dos dentes e maxilares. Além disso, ajuda a criar uma relação de confiança da criança com o ambiente de consultório e com o médico dentista desde cedo.
Com que frequência devem ir a consultas?
Filipa Maria Roque: De forma geral, recomenda-se uma consulta de acompanhamento a cada seis meses. No entanto, a frequência pode variar consoante o risco de cárie, a idade da criança, os hábitos alimentares e a necessidade de acompanhar o desenvolvimento oral e dentário. As consultas regulares permitem identificar precocemente qualquer alteração, acompanhar a troca dos dentes e reforçar hábitos corretos de higiene oral. Quanto mais preventiva for a abordagem, mais simples e menos invasivos tendem a ser os tratamentos ao longo da vida.



