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Salvador Mendes de Almeida: “É uma oportunidade única de ajudar sem qualquer custo”

Apesar de 93% dos portugueses conhecerem a possibilidade de consignar o IRS, apenas metade o faz. Salvador Mendes de Almeida, fundador da Associação Salvador, explica em entrevista por que este gesto simples pode transformar vidas, através de uma campanha inspirada nas ‘tormentas’ de Os Lusíadas.

Já alguma vez consignou o seu IRS? De acordo com um estudo da Netsonda, apenas metade (50%) dos contribuintes o fazem regularmente, apesar de 93% conhecerem esta possibilidade. Curiosamente, 27% ainda pensam que custa dinheiro.

A Associação Salvador, fundada há mais de 20 anos por Salvador Mendes de Almeida, que nos conta em entrevista, “trabalha todos os dias para que nenhuma condicionante física seja um limite para a vida de alguém”. Perante estes números, lançou uma campanha de consignação de IRS para sensibilizar os contribuintes portugueses.

Inspirada n’Os Lusíadas de Luís de Camões, a campanha recorre ao conceito das “tormentas”, episódios que simbolizam grandes desafios, como o gigante Adamastor. A metáfora remete para as dificuldades diárias enfrentadas por pessoas com deficiência motora ou mobilidade condicionada, que continuam a encontrar barreiras no espaço público, como escadas sem alternativa ou passeios inacessíveis.

Salvador Mendes de Almeida, fundador da Associação Salvador, em entrevista

A nova campanha da Associação Salvador inspira-se em Os Lusíadas, num paralelo com as “tormentas” de Camões. Como nasceu esta ideia e o que simboliza, para si, esta metáfora aplicada à realidade das pessoas com deficiência?

A ideia surgiu da vontade de usar um símbolo forte da nossa cultura para comunicar um desafio atual. N’ Os Lusíadas, as tormentas representam obstáculos gigantescos e essa imagem continua muito atual. Para muitas pessoas com deficiência, as “tormentas” são reais e diárias: uma escada, um passeio inacessível, uma porta fechada. Esta metáfora ajuda-nos a tornar visível aquilo que muitas vezes passa despercebido.

O gesto de consignar 1% do IRS é simples e gratuito, mas muitas pessoas ainda não o fazem. Que mensagem gostaria de deixar a quem hesita em fazê-lo?

Diria que é uma oportunidade única de ajudar sem qualquer custo. Ainda há muitos portugueses que não sabem disso: cerca de 27% acreditam que tem custos, quando na verdade estamos apenas a decidir o destino de uma parte do imposto que já vamos pagar.

E embora 93% conheçam a consignação, apenas cerca de metade o pratica regularmente. Ou seja, há um enorme potencial por concretizar. É um gesto simples, mas com impacto real: pode transformar-se em emprego, em autonomia, em acesso ao desporto. Pequenas decisões individuais podem gerar uma grande mudança coletiva.

“Esta metáfora ajuda-nos a tornar visível aquilo que muitas vezes passa despercebido”

Há algum novo projeto que este valor venha apoiar em 2026?

Sim, queremos reforçar áreas-chave como a empregabilidade, o desporto adaptado e as acessibilidades, mas também continuar o trabalho de sensibilização, que é realizado junto de toda a população, nomeadamente nas camadas mais jovens. Por exemplo, o nosso projeto Escolas, já impactou mais de 180 mil alunos em todo o país.

A consignação do IRS permite-nos não só dar continuidade a estes projetos, mas também inovar e chegar a mais pessoas. No fundo, permite-nos continuar a construir um país onde a deficiência não seja sinónimo de exclusão, mas apenas mais uma expressão da diversidade humana.

A Associação Salvador nasceu de uma experiência pessoal que se transformou numa causa coletiva. Que visão o guiou nos primeiros passos e que princípios continuam, ainda hoje, a sustentar a missão da associação?

Desde o início, a minha motivação foi transformar uma dificuldade pessoal numa oportunidade de impacto coletivo. Percebi que aquilo que eu vivia e sentia na pele (as barreiras, a falta de acessibilidade, as dificuldades de integração) era experienciado por muitas outras pessoas.

Lembro-me ainda que um dos meus grandes sonhos era criar um espaço verdadeiramente inclusivo, com um tipo de reabilitação que só encontrei fora de Portugal, em grandes centros de referência a nível mundial. A visão foi sempre clara: garantir que ninguém fica para trás por ter uma deficiência motora. Hoje, mantemos os mesmos princípios de inclusão, autonomia e igualdade de oportunidades, mas com uma ambição ainda maior de mudar mentalidades e de criar soluções concretas.

“Pequenas decisões individuais podem gerar uma grande mudança coletiva”

Olhando para estas mais de duas décadas de trabalho, quando sentiu que a associação começou verdadeiramente a ter impacto na vida das pessoas e na sociedade portuguesa?

Houve vários momentos marcantes, mas talvez quando começámos a ver histórias concretas de transformação. Pessoas que conseguiram o primeiro emprego, que voltaram a praticar desporto ou que ganharam independência no seu dia a dia. A partir daí percebemos que não estávamos apenas a apoiar pontualmente, mas sim a mudar trajetórias de vida.

E quando a sociedade começou a falar mais sobre inclusão, também percebemos que estávamos a contribuir para essa mudança.

Que conquistas considera mais emblemáticas? 

Há várias conquistas importantes, mas destaco o trabalho que temos desenvolvido na empregabilidade e no desporto adaptado. São áreas que mudam vidas de forma muito visível.

“Hoje fala-se mais de inclusão e há maior sensibilidade para o tema.”

Há algum projeto que simbolize, para si, o espírito da Associação Salvador?

Se tivesse de escolher um símbolo, diria que é a capacidade de dar autonomia, seja através de uma oportunidade de trabalho ou de voltar a praticar uma modalidade desportiva. Isso representa muito bem o espírito da Associação Salvador: capacitar pessoas para viverem plenamente.

Desde 2003, muita coisa mudou na forma como o país olha para a deficiência. Em que pontos sente evolução?

Houve uma evolução significativa ao nível da consciência social. Hoje fala-se mais de inclusão e há maior sensibilidade para o tema. No entanto, na prática, ainda encontramos muitas barreiras.

Quais?

Por exemplo, em Portugal, milhares de pessoas com deficiência enfrentam vários obstáculos. Diariamente, somos confrontados com escadas onde deveriam existir rampas, passeios intransitáveis, portas que não abrem, oportunidades de emprego que não chegam, preconceitos que teimam em persistir. Por isso, entristece-me ver oportunidades de financiamento desperdiçadas e intervenções urbanas que continuam a excluir. Melhorar a acessibilidade não é um favor, nem um custo extra.

Além disso, Portugal é o terceiro país mais envelhecido da Europa. As projeções indicam que, dentro de 10 anos, cerca de um terço da população terá mais de 65 anos, um grupo etário onde a probabilidade de mobilidade condicionada aumenta de forma significativa. Nesse sentido, é, mais importante do que nunca, repensar as cidades e projetá-las para todos.

“Melhorar a acessibilidade não é um favor, nem um custo extra”

O trabalho da Associação passa por várias frentes — do desporto adaptado à empregabilidade e às acessibilidades. Que áreas têm registado maiores progressos e onde há ainda “tormentas” a enfrentar?

A empregabilidade tem registado avanços importantes. Desde 2003, já conseguimos integrar mais de 550 pessoas no mercado de trabalho, o que é muito significativo. Por outro lado, através da Academia Salvador, já formámos mais de 1500 colaboradores de empresas para a cultura inclusiva e sensibilizámos mais de 1200 empresas.

Também no desporto adaptado temos resultados muito positivos, com cerca de 200 atletas acompanhados regularmente e dezenas de pódios conquistados todos os anos. Registámos ainda o apoio a mais de 7000 pessoas únicas com deficiência motora, desde que criámos a Associação.

No entanto, as acessibilidades continuam a ser uma grande “tormenta”. Muitas vezes, o talento e a vontade existem, mas esbarram em barreiras físicas e estruturais que continuam por resolver.

O caminho tem sido positivo, mas ainda demasiado lento para quem vive estas dificuldades todos os dias e vive aprisionado na sua própria casa. Na minha perspetiva, persiste uma falta de consideração tão evidente quanto estrutural para com as pessoas com mobilidade condicionada. Soma-se a isso uma negligência contínua e inaceitável por parte dos autarcas e responsáveis políticos. E a verdade, embora incómoda, é clara: nunca fomos prioridade e continuamos a não ser.

Sente que a sociedade portuguesa está hoje mais aberta ao diálogo e à partilha de responsabilidade no tema da inclusão?

Sim, claramente. Hoje há mais abertura e mais vontade de colaborar. As empresas estão mais conscientes do seu papel social e as entidades públicas têm vindo a dar passos importantes. Ainda há muito a fazer, mas sentimos que já não estamos sozinhos nesta missão e isso faz toda a diferença.

“Gostaria de ver uma sociedade verdadeiramente inclusiva, onde a acessibilidade seja garantida à partida e não uma exceção”

Se tivesse de resumir a missão da Associação Salvador numa frase, qual seria?

Trabalhar todos os dias para que nenhuma condicionante física seja um limite para a vida de alguém.

Que objetivos gostaria de ver cumpridos nos próximos anos para consolidar o legado da Associação Salvador e preparar o futuro?

Gostaria de ver uma sociedade verdadeiramente inclusiva, onde a acessibilidade seja garantida à partida e não uma exceção.

Continuamos ativamente à procura de um espaço próprio onde possamos construir um ginásio de referência e pensado à medida de pessoas com necessidades especiais. Queremos continuar a crescer, chegar a mais pessoas e aumentar o impacto dos nossos projetos, especialmente na empregabilidade e na autonomia. E, acima de tudo, contribuir para uma mudança cultural duradoura.

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